Polícia Federal revela saques volumosos em investigação da Operação Igapó, que mira esquema de desvio de verbas e lavagem de dinheiro sob liderança de Antônio Doido.
É impossível não sentir um choque ao imaginar quase R$ 50 milhões em dinheiro vivo circulando fora do sistema bancário formal, retirados em espécie por um grupo sob suspeita de desviar recursos públicos. Essa é a dimensão da investigação que colocou novamente o deputado federal Antônio Doido (MDB-PA) no centro de um dos maiores casos de combate à corrupção e lavagem de dinheiro em curso no Brasil.
A Polícia Federal identificou 15 saques em espécie que somam mais de R$ 48 milhões, realizados entre março de 2023 e outubro de 2024, no contexto do esquema supostamente liderado pelo parlamentar e executado por aliados próximos. Saque milionário em flagrante e papel de operadores do esquema.

Antônio Doido
De acordo com o relatório da PF, os levantamentos em dinheiro ocorreram principalmente em agências bancárias nos municípios paraenses de Castanhal e São Miguel do Guamá. Em 4 de outubro de 2024, um dos dias de maior movimentação, foram retirados R$ 5 milhões em espécie, valor que motivou a prisão em flagrante de Francisco de Assis Galhardo do Vale, Geremias Cardoso da Hungria e Ellis Dangeles Noronha Martins durante uma ação dentro de uma agência bancária.
Galhardo, um policial militar aposentado que a PF aponta como operador do grupo, teria atuado a mando de Antônio Doido para efetuar os saques: parte de um amplo conjunto de movimentações que chamaram a atenção dos investigadores e ajudaram a traçar a estrutura do suposto esquema criminoso.
Operação Igapó e cumprimento de mandados
Na manhã desta terça-feira (16), a Polícia Federal deflagrou a Operação Igapó, cumprindo 31 mandados de busca e apreensão no Pará e no Distrito Federal, todos autorizados pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal.
Durante as diligências, agentes encontraram celulares arremessados pela janela do apartamento funcional de Doido, em Brasília, e seguiram apreendendo aparelhos e documentos que podem trazer novos elementos à investigação.
O que a PF apura
Segundo a corporação, os investigados compõem uma organização criminosa que teria desviado recursos públicos por meio de fraudes em processos de licitação. Os valores seriam usados para “vantagens indevidas e ocultação de patrimônio”, com suspeita de envolvimento em **corrupção eleitoral, corrupção ativa e passiva, crimes licitatórios, lavagem de dinheiro e organização criminosa”.
A investigação também encontrou indícios de que parte do dinheiro poderia ser usada para custear deslocamentos de policiais envolvidos, inclusive com a compra de equipamentos como roteadores via satélite para garantir comunicação em áreas remotas.
Quem é Antônio Doido
O deputado Antônio Leocádio dos Santos, conhecido como Antônio Doido, está no seu primeiro mandato como federal pelo MDB-PA, eleito em 2022. Antes disso, foi prefeito de São Miguel do Guamá (PA) e tem sua atuação política fortemente ligada ao interior paraense.
Ele já vinha sendo investigado em outras frentes: no início de 2025, um de seus assessores foi preso com mais de R$ 1 milhão em espécie e um carro blindado em Belém, o que já havia colocado a PF na trilha de movimentações suspeitas relacionadas à sua rede de aliados.
Relevância do caso e o que vem pela frente
Este caso é mais uma demonstração da complexidade e do alcance das investigações de corrupção no Brasil, uma vez que envolve não apenas o suposto desvio de recursos públicos, mas também movimentações financeiras vultosas em espécie, técnicas típicas de lavagem de dinheiro e a participação de agentes públicos e privados em um mesmo grupo.
À medida que a Igapó avança, o país acompanha não só a investigação, mas também a disputa sobre transparência, a responsabilização de agentes públicos e o significado de defender o interesse coletivo diante de práticas que podem corroer pilares essenciais da democracia. Se confirmadas, as acusações podem não apenas marcar o fim da carreira política de um parlamentar, mas também ressoar como um alerta sobre a urgência de reforçar os mecanismos de controle do uso de recursos públicos.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reprodução













