Sessão foi retomada sob pressão, após ameaças de punição por ocupação do plenário por parlamentares da oposição.
Num dia tenso que colocou à prova a autoridade da presidência da Câmara dos Deputados, o país assistiu a mais um episódio que escancara o grau de radicalização que tomou conta do Congresso Nacional. Enquanto bolsonaristas ocupavam o plenário e transformavam o espaço institucional em palco de lives e discursos inflamados, Hugo Motta (Republicanos-PB) precisou de apoio da tropa de choque e de articulações de última hora para, enfim, sentar na cadeira que lhe cabe.
Mesmo diante de boatos de que teria feito um acordo com a oposição para avançar a pauta da anistia e da PEC que propõe o fim do foro privilegiado, aliados próximos ao presidente da Casa negam qualquer negociação. Parlamentares que acompanharam Hugo durante toda a quarta-feira (6) afirmam que não houve concessão alguma, apenas o compromisso de partidos como União Brasil e PP em manter uma obstrução regimental até que as pautas sejam discutidas de forma institucional.
“Hugo não aceitou discutir nada enquanto não assumisse a presidência”, declarou um integrante da Mesa Diretora à CNN, rebatendo as versões alardeadas por lideranças bolsonaristas nas redes sociais. Para aliados de Hugo, a narrativa do suposto acordo foi construída para suavizar a derrota simbólica da oposição, que acabou sendo obrigada a ceder após a ameaça concreta de punições.
A ocupação do plenário, que teve início ainda na terça-feira, não era uma simples obstrução, tática comum de qualquer oposição, mas uma ocupação física, com deputados sentados na cadeira da presidência e transformando o local em cenário para transmissões ao vivo. A deputada Júlia Zanatta (PL-SC) levou até a filha de quatro meses, que chegou a ser amamentada na cadeira da presidência, gesto que, apesar da carga simbólica, foi amplamente criticado por setores que viram na ação um desrespeito à liturgia do cargo e à instituição.
Na tentativa de restabelecer a ordem, a Mesa Diretora publicou um ato administrativo ameaçando suspender por até seis meses os mandatos de deputados que impedissem ou dificultassem o andamento das sessões. A medida foi o estopim para que Hugo conseguisse retomar o controle. Cerca de meia hora antes da sessão, o clima mudou. A possibilidade real de punição surtiu efeito, e os parlamentares bolsonaristas recuaram.
A presença do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), também foi decisiva. Mesmo sem cargo formal, Lira recebeu deputados do PL e atuou nos bastidores para evitar que a crise institucional se agravasse ainda mais.
A ironia do desfecho ficou por conta de Marcel Van Hattem (Novo-RS), último a deixar a cadeira da presidência. Derrotado por Hugo Motta na eleição pela presidência da Câmara, coube a ele, simbolicamente, abrir caminho para que o atual presidente retomasse o comando da Casa.
Com o plenário retomado, a crise parece, por ora, contida. Mas os sinais de desgaste e de ruptura institucional seguem no ar e, mais do que nunca, exigem vigilância e responsabilidade dos que foram eleitos para zelar pela democracia.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













