Fiscalização revela fragilidades em estruturas que sustentam a sobrevivência de moradores de Bom Futuro.
Quando o sustento de uma comunidade inteira depende da mineração, qualquer rachadura em uma barragem deixa de ser apenas um problema técnico e se transforma em um risco para vidas inteiras. Foi com esse olhar que o Ministério Público Federal (MPF) conduziu, nos dias 10 e 11 de setembro, uma inspeção nas barragens Jacaré Inferior e Jacaré Superior, no distrito de Bom Futuro, em Ariquemes (RO).
A fiscalização reuniu engenheiros da Agência Nacional de Mineração (ANM), técnicos das cooperativas Coopersanta e Coopermetal, além de policiais federais e servidores do Ministério Público da União (MPU). O resultado traz à tona um retrato preocupante sobre a segurança dessas estruturas de rejeitos de cassiterita.
Risco de desmoronamento no período de chuvas
O relatório identificou instabilidade no talude da barragem Jacaré Superior, agravada por um canal escavado ainda no início da exploração mineral. Em caso de chuvas intensas, há risco real de desmoronamento. A ANM recomendou um novo desvio do rio, mas condicionou a medida à realização de estudos técnicos e aprovação ambiental.
Ausência de videomonitoramento
Outro ponto crítico é a falta de videomonitoramento. Apesar de já ter sido exigido em fiscalizações anteriores, nenhuma das duas barragens possui sistema de câmeras. As cooperativas justificaram o descumprimento alegando risco de furto dos equipamentos, mas, segundo o MPF, essa é uma ferramenta indispensável para prevenir acidentes e garantir a proteção ambiental.
Bom Futuro: vulnerabilidade em evidência
O distrito de Bom Futuro vive uma realidade paradoxal: depende quase que exclusivamente da mineração para sobreviver, mas está exposto aos riscos que ela mesma gera. As condições sociais da comunidade são frágeis, e qualquer falha nas barragens pode se transformar em uma tragédia de grandes proporções.
Providências exigidas
O MPF determinou que a ANM envie, em até 30 dias, toda a documentação referente às inspeções, incluindo relatórios técnicos, imagens e pareceres. Também reforçou que as recomendações anteriores: como a instalação do videomonitoramento, obras de estabilidade no talude e desvio do curso do rio, devem ser cumpridas com rigor técnico e responsabilidade ambiental.
Além disso, o órgão deixou claro que não aceitará a redução do grau de risco das barragens sem justificativa técnica sólida, cobrando transparência das cooperativas envolvidas.
Um alerta que não pode ser ignorado
Casos recentes no país mostraram que tragédias anunciadas em barragens poderiam ter sido evitadas se houvesse mais fiscalização e menos descaso. Bom Futuro, que já carrega no nome a esperança de seus moradores, não pode ser palco de mais uma história marcada por lama e silêncio. Que o relatório do MPF não fique apenas no papel, mas seja um chamado à responsabilidade coletiva para proteger vidas, o meio ambiente e o futuro de Rondônia.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













