Em meio a protestos sangrentos e ameaças militares, declarações de Trump reacendem a expectativa e o temor de um novo capítulo na crise entre Washington e Teerã
Enquanto as ruas do Irã seguem marcadas por protestos, repressão e silêncio imposto pelo bloqueio de comunicações, uma frase vinda da Casa Branca voltou a sacudir o cenário internacional. Ao afirmar que autoridades iranianas “ligaram para negociar”, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacendeu não apenas a esperança de diálogo, mas também o receio de que a diplomacia caminhe lado a lado com a ameaça de força militar.
No domingo (11), Trump disse que uma reunião estaria sendo organizada e que o Irã demonstrou interesse em negociar. Ao mesmo tempo, deixou claro que uma ação militar segue como possibilidade. A declaração ocorre em meio a duas semanas de protestos intensos contra o regime teocrático iraniano, reprimidos com violência, segundo denúncias de organizações de direitos humanos.
Protestos, repressão e isolamento
O Irã vive uma de suas maiores ondas de contestação interna dos últimos anos. Na quinta-feira (8), considerada a noite mais intensa de manifestações até agora, as autoridades cortaram o acesso à internet e às linhas telefônicas, isolando o país do mundo exterior.
Organizações de direitos humanos estimam que mais de 500 pessoas tenham sido mortas e cerca de 10.600 presas desde o início dos protestos. O cenário aumenta a pressão internacional sobre Teerã e serve de pano de fundo para as ameaças de Trump, que já afirmou que os Estados Unidos poderiam “intervir” caso a repressão se intensifique.
O que pode entrar na negociação
Segundo Trump, o contato do Irã ocorreu no sábado (10). O presidente americano afirmou que os líderes iranianos estariam “cansados de apanhar dos Estados Unidos” e dispostos a negociar, embora não tenha apresentado detalhes sobre quem fez o contato ou em quais termos.
A CNN informou que Washington avalia diferentes caminhos, que vão desde ataques militares até o endurecimento de sanções, mirando figuras do regime e setores estratégicos da economia iraniana, como energia e sistema bancário.
Programa nuclear no centro do impasse
Um dos principais pontos de qualquer negociação segue sendo o programa nuclear iraniano. No primeiro semestre do ano passado, houve várias rodadas de negociações indiretas entre o chanceler iraniano Abbas Araghchi e o enviado de Trump, Steve Witkoff. O foco estava nos limites do enriquecimento de urânio, tema sensível e historicamente explosivo.
Os Estados Unidos também tentaram incluir na pauta o programa de mísseis balísticos do Irã, exigência rejeitada por Teerã, que argumenta que impor restrições nessa área deixaria o país vulnerável. Essa posição pode ter se tornado ainda mais rígida após o ataque israelense-americano de junho, que atingiu instalações iranianas.
Negociações interrompidas e desconfiança mútua
A última rodada de conversas, realizada em maio, chegou a ser descrita por ambos os lados como profissional e construtiva. No entanto, o diálogo foi abruptamente interrompido após Israel lançar um ataque surpresa contra o Irã em junho, seguido por bombardeios americanos a instalações nucleares.
Na ocasião, Trump afirmou que o programa nuclear iraniano havia sido aniquilado. Avaliações independentes, porém, indicaram que o avanço nuclear pode ter sido apenas atrasado por meses ou anos, e não completamente destruído.
Linhas vermelhas de Teerã
O Irã afirma estar disposto a retomar as negociações, mas deixa claro que não abrirá mão do enriquecimento de urânio. Para Teerã, esse ponto é inegociável.
“Descobrir o caminho para um acordo não é nenhum bicho de sete cabeças”, escreveu Abbas Araghchi em maio. “Zero armas nucleares = temos um acordo. Zero enriquecimento = não temos um acordo.”
Em novembro, Kamal Kharrazi, conselheiro de política externa do aiatolá Ali Khamenei, reforçou que caberia aos Estados Unidos dar o primeiro passo. Segundo ele, qualquer retomada do diálogo precisaria ocorrer em condições de igualdade e respeito mútuo.
Entre ameaças, telefonemas e bastidores diplomáticos, o possível diálogo entre Irã e Estados Unidos surge cercado de incertezas. Em um cenário onde palavras podem evitar guerras ou acelerá-las, o mundo observa atento, sabendo que cada frase dita por líderes globais pode significar tanto uma saída negociada quanto o prenúncio de um conflito ainda maior.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil













