Nova regra entra em vigor nesta quinta-feira, amplia a faixa de isenção, cria desconto gradual para salários médios e aumenta a tributação sobre altas rendas e dividendos.
A partir desta quinta-feira (1º), o Imposto de Renda passa a pesar menos no bolso de milhões de brasileiros. Em um cenário de custo de vida elevado e renda apertada, a ampliação da faixa de isenção para quem ganha até R$ 5 mil por mês representa mais do que uma mudança técnica: é um alívio concreto no orçamento de trabalhadores que convivem diariamente com contas no limite e pouca margem para imprevistos.
Sancionada em novembro, a reforma do Imposto de Renda começa a valer agora e beneficia cerca de 15 milhões de pessoas, segundo o governo. Ao mesmo tempo, o novo modelo redesenha a tributação sobre quem tem renda mais alta e sobre dividendos, alterando a lógica de arrecadação e reacendendo debates sobre justiça fiscal no país.
Quem passa a ficar totalmente isento
A principal mudança da reforma é clara e direta. Trabalhadores com renda mensal de até R$ 5 mil passam a ter isenção total do Imposto de Renda. Antes, esse limite era de apenas dois salários mínimos, hoje em R$ 3.036.
Com a nova faixa, o governo estima uma renúncia fiscal de R$ 25,4 bilhões. Na prática, quem ganha até R$ 5 mil pode economizar até R$ 4 mil por ano, considerando o décimo terceiro salário. Para muitas famílias, esse valor pode significar menos endividamento, mais consumo básico ou até a chance de guardar algum recurso.
Desconto gradual evita salto no imposto
Para quem ganha um pouco mais, a reforma cria uma zona de transição. Salários entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350 terão isenção parcial, com um desconto que diminui gradualmente conforme a renda aumenta.
O objetivo é evitar o chamado degrau tributário, situação em que um pequeno aumento salarial gera um salto desproporcional no imposto. Na prática, os efeitos variam caso a caso, mas os exemplos ajudam a entender o impacto: um salário de R$ 5.500 pode ter redução de cerca de 75% no imposto mensal; quem recebe R$ 6.500 pode economizar aproximadamente R$ 1.470 por ano; e rendas em torno de R$ 7 mil ainda percebem uma economia anual estimada em R$ 600.
Acima de R$ 7.350, nada muda. Segue valendo a tabela progressiva atual, com alíquota máxima de 27,5%.
Mudança já aparece no salário
O impacto da nova regra é imediato. Quem se enquadra na isenção total ou no desconto parcial já deixa de sofrer a retenção integral do Imposto de Renda na fonte sobre o salário de janeiro, pago no fim deste mês ou no início de fevereiro.
Apesar disso, é importante atenção: mesmo quem agora está isento ainda precisará entregar a declaração em 2026, já que ela se refere ao ano-base de 2025, quando as novas regras ainda não estavam em vigor.
Imposto mínimo para alta renda
Para compensar a perda de arrecadação, a reforma cria o Imposto de Renda da Pessoa Física Mínimo, voltado a contribuintes de alta renda. A regra passa a atingir quem recebe mais de R$ 600 mil por ano, o equivalente a R$ 50 mil por mês.
A alíquota será progressiva, chegando a até 10% para rendas anuais acima de R$ 1,2 milhão. Segundo o governo, cerca de 141 mil brasileiros serão afetados.
Entram no cálculo salários, lucros, dividendos e rendimentos financeiros tributáveis. Investimentos incentivados, como poupança, LCI, LCA, fundos imobiliários e Fiagro, ficam fora, assim como heranças, doações, indenizações por doença grave e alguns ganhos de capital. O imposto mínimo só será efetivamente apurado na declaração de 2027.
Dividendos passam a ser tributados
Outra mudança relevante está na tributação de dividendos. A partir de agora, haverá retenção de 10% na fonte sobre dividendos que ultrapassarem R$ 50 mil por mês, pagos por uma única empresa à pessoa física.
A medida atinge principalmente grandes empresários e sócios que recebiam altos valores isentos. A maioria dos investidores não será impactada. O imposto retido poderá ser compensado na declaração anual.
Especialistas, porém, alertam para possíveis disputas judiciais. Dividendos referentes a lucros apurados até 2025 só permanecem isentos se a distribuição tiver sido aprovada até 31 de dezembro daquele ano, o que pode gerar questionamentos sobre efeito retroativo.
Um novo desenho para a renda no Brasil
A reforma do Imposto de Renda começa a ser sentida agora, no contracheque, mas seus efeitos completos só aparecerão nos próximos anos. Mais do que números e alíquotas, ela escancara uma discussão essencial sobre quem paga a conta do Estado e como equilibrar justiça social, arrecadação e desenvolvimento.
Para milhões de brasileiros, o alívio chega em forma de alguns reais a mais no fim do mês. Para outros, a mudança impõe uma nova responsabilidade. No centro desse redesenho, fica a expectativa de que um sistema tributário mais equilibrado possa, de fato, aproximar o país de uma realidade mais justa.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reprodução













