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Israel e EUA intensificam ofensiva contra programa nuclear do Irã, e Teerã pede ajuda à Rússia

Ataques às instalações nucleares e temor de retaliação ampliam crise no Oriente Médio; especialistas avaliam riscos de contaminação.

A tensão no Oriente Médio atingiu um novo patamar após a sequência de ataques de Israel e Estados Unidos contra instalações nucleares estratégicas no Irã. Na manhã desta segunda-feira (23), as Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram que realizaram bombardeios contra as rotas de acesso ao complexo de Fordow, uma das principais unidades de enriquecimento de urânio do país persa.

A ação israelense veio cerca de 36 horas depois de os Estados Unidos atacarem o próprio complexo com bombas destruidoras de bunkers, numa das maiores ofensivas americanas contra a República Islâmica desde a Revolução de 1979.

Segundo o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, os danos causados por Washington foram “severos”, e os dois países continuam avaliando o impacto total das operações. “Eliminamos cientistas nucleares, fábricas de centrífugas, instalações de enriquecimento. Danificamos severamente Fordow e destruímos Natanz”, declarou Netanyahu, sinalizando que o objetivo é enfraquecer de forma definitiva a capacidade nuclear do Irã.

Irã busca apoio de Moscou

Em resposta aos ataques, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, enviou o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, a Moscou para pedir maior apoio da Rússia. Segundo fontes diplomáticas ouvidas pela agência Reuters, Teerã busca uma resposta mais contundente do Kremlin diante da ofensiva ocidental.

O ministro iraniano levou uma carta pessoal de Khamenei ao presidente Vladimir Putin, em um esforço para reforçar os laços bilaterais e obter assistência política e militar. Até o momento, o teor exato da carta não foi divulgado, mas o próprio Araqchi confirmou que o Irã e a Rússia estão “coordenando posições sobre a escalada atual no Oriente Médio”.

Apesar de Moscou ser um aliado histórico de Teerã e membro das negociações nucleares com o Ocidente, analistas avaliam que o envolvimento direto da Rússia em um eventual conflito militar ainda é improvável, sobretudo por conta do desgaste da guerra na Ucrânia.

No domingo (22), Rússia, China e Paquistão apresentaram uma proposta de cessar-fogo imediato no Conselho de Segurança da ONU, mas o texto ainda não foi votado.

Risco de desastre nuclear: o que dizem os especialistas

Os ataques a instalações nucleares naturalmente levantaram o temor de um possível desastre radiológico. No entanto, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), nenhum aumento nos níveis de radiação foi detectado até o momento, nem em Fordow, nem nas demais unidades atingidas, como Natanz, Isfahan e Khondab.

De acordo com o chefe da AIEA, Rafael Grossi, o Irã comunicou oficialmente que as áreas próximas seguem dentro dos parâmetros de segurança.

Especialistas em segurança nuclear reforçam que, por enquanto, os riscos de contaminação são limitados. A maior preocupação recai sobre o hexafluoreto de urânio (UF6), uma substância química tóxica usada nas etapas iniciais do ciclo de combustível nuclear. Quando em contato com umidade, o material pode liberar gases prejudiciais, mas a maior parte dessas instalações está localizada no subsolo, o que ajuda a conter eventuais vazamentos.

O cenário muda de gravidade caso haja ataques a reatores de energia, como o de Bushehr, na costa do Golfo Pérsico. Em um episódio recente, o exército israelense chegou a anunciar e depois corrigir, um suposto ataque ao local. Se confirmada uma ação desse tipo no futuro, o risco de um desastre radiológico de grandes proporções se tornaria real.

“Ataques às fases iniciais do ciclo do combustível apresentam mais riscos químicos do que radiológicos”, explicou Darya Dolzikova, pesquisadora do think tank britânico RUSI. Já James Acton, especialista do Carnegie Endowment, ressaltou: “Antes de o urânio entrar em um reator, ele é pouco radioativo. O maior perigo neste momento é químico, não nuclear.”

Escalada sem fim à vista

Enquanto o Irã promete retaliação e busca reforços diplomáticos e militares, os Estados Unidos mantêm cerca de 40 mil soldados espalhados pelo Oriente Médio, com reforço de sistemas antimísseis e caças para proteger as bases americanas de possíveis contra-ataques.

Donald Trump, presidente dos EUA, já advertiu que qualquer resposta iraniana será enfrentada com “força ainda maior”.

O Oriente Médio segue em estado de alerta máximo. E, com as potências globais agora diretamente envolvidas, o risco de um confronto ainda mais amplo cresce a cada novo ataque.

Cronologia dos ataques recentes ao programa nuclear do Irã

  • 13 de junho de 2025
    Israel realiza uma primeira série de ataques aéreos contra alvos nucleares iranianos, incluindo instalações em Natanz e Isfahan. Foi a primeira ação militar aberta de Israel contra o programa nuclear do Irã desde o início da nova escalada.
  • 21 de junho de 2025 (sábado)
    Os Estados Unidos entram diretamente no conflito e lançam ataques de grande escala contra três importantes instalações nucleares iranianas: Fordow, Natanz e Isfahan. Foram usadas bombas capazes de destruir estruturas subterrâneas (bunker busters).
  • 22 de junho de 2025 (domingo)
    O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declara que os ataques americanos causaram “danos severos” à infraestrutura nuclear iraniana. No mesmo dia, o Irã inicia consultas diplomáticas e envia o ministro das Relações Exteriores a Moscou para buscar apoio da Rússia.
  • 23 de junho de 2025 (segunda-feira)
    Israel realiza uma nova ofensiva, desta vez visando as rotas de acesso à instalação de Fordow, com o objetivo de impedir a movimentação de equipamentos e equipes de reparo iranianas.
    Enquanto isso, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informa que não houve aumento nos níveis de radiação nas áreas próximas às instalações atingidas.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação

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