Com saúde debilitada, sem sucessor definido e sob pressão internacional, aiatolá tenta manter regime em meio ao caos.
Durante mais de três décadas, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, atravessou guerras, crises econômicas, dissidências internas e confrontos com o Ocidente. Mas o momento atual representa o maior desafio de sua liderança: ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel atingiram o centro do poder iraniano e abalaram as estruturas do regime.
A resposta de Khamenei a essa ofensiva pode moldar o futuro do Irã e de toda a geopolítica do Oriente Médio. Aos 86 anos, com a saúde fragilizada e sem sucessor indicado, o líder se vê encurralado por uma série de perdas estratégicas: instalações nucleares destruídas, cientistas mortos, comandantes da Guarda Revolucionária eliminados e aliados regionais enfraquecidos.
Ao mesmo tempo, o país afunda ainda mais em uma crise econômica agravada pelas sanções e pela destruição de bilhões de dólares investidos no programa nuclear em menos de duas semanas. Mesmo com o cessar-fogo em vigor, Khamenei manteve-se recluso por dias e só falou ao país por meio de vídeo; o que foi lido como um sinal de vulnerabilidade.
Apesar disso, o aiatolá usou o discurso para reafirmar seu enfrentamento ao Ocidente. “Este presidente [Trump] deixou claro que os americanos só ficarão satisfeitos com a rendição total do Irã”, disse. Ele também proclamou uma “vitória” simbólica sobre os EUA e Israel; o que provocou uma reação direta de Donald Trump: “Você tem que dizer a verdade. Você foi espancado.”
Erosão silenciosa
O regime que Khamenei herdou e consolidou desde 1989 enfrenta hoje uma lenta e perigosa erosão. Antigamente hábil em manobras para garantir a sobrevivência política, ele agora lidera um Estado mais rígido, isolado e com poucos caminhos à frente.
A repressão às manifestações internas e a censura não impediram que grupos exilados, jornalistas dissidentes e movimentos separatistas minassem a narrativa oficial. Além disso, a inteligência israelense parece profundamente infiltrada no país, executando operações que desestabilizam o programa nuclear e expõem vulnerabilidades do regime.
A sucessão de Khamenei, nunca discutida publicamente, torna-se cada vez mais urgente e delicada. O vácuo de liderança pode abrir espaço para disputas internas entre os clérigos e os militares, especialmente dentro da poderosa Guarda Revolucionária.
O dilema nuclear
Diante de tantas perdas e da crescente desconfiança, há quem acredite que Khamenei pode rever sua fatwa histórica, que proíbe o Irã de desenvolver armas nucleares. O Parlamento iraniano já sinalizou a intenção de romper com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o que poderia abrir caminho para uma guinada.
Israel afirma que sua ofensiva teve como objetivo justamente impedir que Teerã construa uma bomba. Já Trump disse que “a última coisa em que o Irã está pensando é numa arma nuclear”, mas garantiu que, se houver evidências de enriquecimento perigoso de urânio, “bombardearia novamente, sem dúvidas”.
Reformas ou resistência?
Em meio à crise, uma rara unidade interna foi citada por Khamenei em sua mensagem à população. Ele exaltou a união dos iranianos diante das ameaças externas, mas não sinalizou qualquer abertura real a reformas.
Internamente, ele ainda resiste a mudanças políticas e econômicas mais profundas e esse conservadorismo pode impedir até mesmo uma reaproximação com vizinhos árabes ou com os Estados Unidos. A desconfiança permanece enraizada, sobretudo após a retirada do acordo nuclear por Trump em 2018 e os recentes ataques israelenses.
O governo americano chegou a discutir, segundo fontes citadas pela CNN, uma proposta para liberar até US$ 30 bilhões ao Irã em troca de um programa nuclear apenas para fins civis. Trump negou a oferta, mas os canais de diálogo seguem turvos, especialmente após mensagens públicas polêmicas do ex-presidente, que chegaram a conter ameaças indiretas a Khamenei.
“Se Trump quiser um acordo, deve abandonar o tom desrespeitoso”, escreveu o chanceler iraniano Abbas Araghchi, em um recado via redes sociais.
No seu mais recente discurso, Khamenei projetou uma imagem de resistência. Mas, diante de um país enfraquecido, de aliados em ruínas e da ausência de um futuro claro, o aiatolá agora enfrenta a tarefa mais difícil de sua vida: garantir a sobrevivência da República Islâmica diante de sua própria instabilidade.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













