Presidente classifica ação que deixou 121 mortos como “matança” e exige apuração das circunstâncias da operação nos complexos da Penha e do Alemão
“O que aconteceu foi uma matança”, afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta terça-feira (4), durante entrevista concedida a veículos internacionais em Belém. Ele se referia à megaoperação realizada no dia 28 de outubro nos complexos da Complexo do Alemão e da Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, que terminou com 121 pessoas mortas, incluindo quatro policiais.
Investigação sob pressão
Lula determinou que o governo federal impulsione uma investigação independente para apurar “em que condições se deu” a operação. Ele ressaltou que a ordem judicial era para prisão de suspeitos, “não uma ordem de matança”. O presidente ainda admitiu que, embora a atuação do Estado pudesse contabilizar números expressivos, “do ponto de vista da ação estatal, ela foi desastrosa”.
Segundo dados da operação, das 121 vítimas, 99 já foram identificadas pelo Instituto Médico-Legal (IML). Além disso, levantamento da agência Reuters apontou que 42 dos mortos tinham mandados de prisão em aberto e 78 tinham histórico criminal.
Sucesso oficial, questionamentos públicos
Autoridades estaduais do Rio de Janeiro qualificaram a ação como “um sucesso”, com o governador Cláudio Castro afirmando que as “únicas vítimas reais” foram os policiais, já que todos os demais eram criminosos. Contudo, organizações de direitos humanos e a ONU manifestaram preocupação com o alto número de mortos, com indícios de execuções sumárias, tolerância à violência e falta de transparência.
Pesquisa do instituto Genial/Quaest revelou que, embora 64% dos entrevistados no estado do Rio aprovem a ação, o grupo de eleitores de esquerda é o único em que a desaprovação supera a aprovação: 59% deles rejeitam a operação.
O que está em jogo
A operação, considerada a mais letal da história do estado e também do país, mobilizou cerca de 2.500 agentes e incluiu prisões em massa, apreensões de armas e suspeitos da facção Comando Vermelho. O governo federal, por sua vez, afirmou que não foi previamente informado da ação, o que aumentou o constrangimento político em torno do incidente.
Para Lula, não se trata apenas de aprovar medidas de repressão ao crime organizado, mas de garantir que o Estado aja “sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco”. Ele também vê a apuração como forma de preservar a legitimidade do poder público: se a Justiça está envolvida em mortes em massa sem clareza, o próprio sistema de segurança e os direitos humanos saem enfraquecidos.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Ricardo Stuckert/PR













