Presidente pressiona ministros para barrar proposta que pode perdoar golpistas do 8 de Janeiro.
A democracia brasileira volta a viver dias de tensão no Congresso. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acionou seus ministros para reforçar o discurso e a articulação contra o projeto de anistia que promete perdoar os envolvidos nos ataques de 8 de Janeiro. Para o Planalto, a proposta representa um risco não apenas político, mas simbólico: perdoar golpistas pode abrir caminho para novos atentados contra a ordem democrática.
Reação no coração do governo
A orientação partiu da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que marcou reunião nesta segunda-feira (8) com integrantes do governo de perfil mais ao centro. A ideia é unir forças na Esplanada dos Ministérios e evitar que a proposta avance na Câmara, onde já encontra apoio crescente, inclusive entre partidos considerados aliados.
Governistas admitem, sob reserva, que a anistia tem ganhado espaço, especialmente após declarações públicas de apoio vindas da União Progressista e do Republicanos. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), também entrou em campo para articular a aprovação.
Pauta dividida no Congresso
Enquanto o PL da Anistia ganha corpo, o Planalto tenta impulsionar outras propostas de apelo popular, como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais e a PEC da Segurança Pública. Mas a batalha contra a anistia é hoje o ponto mais sensível para Lula e seus aliados.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tem defendido uma versão mais “suave” da proposta, discutindo a possibilidade de rever a dosimetria das penas aplicadas. Já no Executivo, há vozes firmes contra qualquer forma de perdão. O ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), gravou um vídeo para reforçar sua posição: “Perdoar golpista é permitir o próximo golpe. A democracia brasileira não pode duas vezes ser golpeada pelo mesmo erro. Anistia, não”.
A incerteza sobre a Câmara
Ainda não há definição do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre a votação da urgência do projeto. No entanto, o Planalto teme que, diante das pressões, ele acabe cedendo e leve o tema ao plenário nos próximos dias.
O que está em jogo vai além de partidos ou de cálculos políticos. Trata-se do recado que o Brasil dará ao mundo e, sobretudo, às novas gerações: se a democracia deve ser protegida a qualquer custo ou se pode ser relativizada em nome de acordos momentâneos. No fim das contas, o debate sobre a anistia não é apenas uma pauta do Congresso, mas um teste histórico sobre até onde estamos dispostos a defender a democracia conquistada com tanto esforço.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Brasil













