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Lula critica Conselho de Paz de Trump e diz que querem transformar Gaza em “resort”

Presidente questiona proposta dos EUA, reafirma posição histórica do Brasil contra armas nucleares e defende que “a paz é a única possibilidade de avanço da humanidade”.

Ao falar sobre guerra, fome e reconstrução, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom e deixou claro que, para ele, não existe paz construída sobre escombros e cadáveres. Durante evento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura para América Latina e Caribe, Lula criticou duramente o chamado Conselho de Paz proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e afirmou que a iniciativa parece querer transformar Gaza em um “resort”.

“Compensou destruir Gaza? Matar a quantidade de mulheres e crianças que mataram, para agora aparecerem com pompa criando um conselho para dizer: vamos reconstruir Gaza?”, questionou. Em seguida, ironizou a proposta: “Aí aparece como se fosse um resort para milionário passar férias no lugar onde estão os cadáveres das mulheres e das crianças que morreram”.

Crítica direta ao Conselho de Paz

O Conselho de Paz foi anunciado por Trump com a proposta de reunir lideranças internacionais para discutir soluções para conflitos globais, começando por Gaza. Lula foi convidado a integrar o grupo no início do ano, dentro de uma estratégia que, segundo o governo norte-americano, visa ampliar a atuação diplomática dos Estados Unidos em cenários de guerra.

Trump chegou a afirmar que o conselho poderia, no futuro, até substituir a própria Organização das Nações Unidas, ampliando seu escopo para além do conflito no Oriente Médio.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, no entanto, a avaliação é de que a proposta enfrenta fragilidades políticas e diplomáticas. Fontes do governo apontam que a escalada de tensões envolvendo o Irã, após ataques atribuídos aos Estados Unidos e a Israel, enfraquece o discurso de neutralidade necessário para um conselho de mediação global.

Constituição brasileira e rejeição às armas nucleares

No mesmo discurso, Lula reforçou um ponto que considera central na identidade diplomática do Brasil: a opção constitucional de não possuir armas nucleares. A Constituição de 1988 prevê o uso da energia nuclear exclusivamente para fins pacíficos.

“Aqui no Brasil nós temos a opção de não possuir armas nucleares na nossa Constituição, porque há muito tempo a gente chegou à conclusão de que aquele ditado ‘quem quer paz se prepara para a guerra’ é para quem quer fazer guerra”, afirmou. “Nós queremos paz, porque a paz é a única possibilidade de fazer com que a humanidade avance.”

A declaração dialoga com a tradição da política externa brasileira de defesa do multilateralismo, da solução negociada de conflitos e do desarmamento nuclear, princípios que o país historicamente sustenta em fóruns internacionais.

Convite sob análise e encontro previsto

A expectativa é que Lula e Trump tratem do tema pessoalmente em uma visita prevista do presidente brasileiro a Washington ainda neste mês. Segundo apuração da analista Isabel Mega, da CNN, a tendência é que Lula decline formalmente do convite para integrar o conselho.

Para o governo brasileiro, há dúvidas sobre a viabilidade real da proposta e sobre a coerência de um órgão que pretende mediar conflitos globais sem ter discutido previamente episódios recentes, como a tensão com o Irã.

Entre escombros e discursos

Ao evocar Gaza, Lula não falou apenas de geopolítica. Falou de crianças mortas, de cidades arrasadas e da reconstrução que, para ele, precisa começar pela dignidade humana, não por projetos grandiosos de poder. Em um mundo onde conselhos e coalizões nascem e morrem ao sabor de interesses estratégicos, a pergunta que ecoa é simples e incômoda: que tipo de paz se quer construir; a das manchetes ou a das pessoas que sobrevivem aos escombros?

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Reuters

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