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Lula embarca para a África do Sul para Cúpula do G20 neste sábado; Trump avisa que não irá

Mesmo sem a presença dos EUA, Brasil quer garantir declaração do grupo e defender pautas como taxação dos super-ricos

A viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à África do Sul, marcada para este sábado (22), tem peso que vai além de uma agenda internacional. Em um momento de tensões geopolíticas e disputas econômicas crescentes, o Brasil chega ao G20 com a responsabilidade de articular consenso, defender seus interesses e tentar evitar que a ausência dos Estados Unidos comprometa os avanços conquistados pelo bloco nos últimos anos.

Segundo o Itamaraty, Lula participará da primeira rodada de reuniões no domingo (23), mas já parte sabendo que uma das maiores potências do mundo não estará à mesa: o presidente Donald Trump e qualquer representante de Washington ficarão de fora do encontro.

Sem os Estados Unidos, mas não sem declaração

A ausência norte-americana trouxe insegurança dentro do grupo. Tradicionalmente, ao final de cada Cúpula, os países divulgam uma declaração conjunta registrando compromissos, metas e prioridades. Em 2024, o documento tratou de mudanças climáticas, conflitos armados e até da taxação de grandes fortunas.

No entanto, nos bastidores, havia pressão para que, desta vez, não houvesse declaração oficial. A África do Sul, anfitriã da Cúpula, e o Brasil defendem firmemente a manutenção do documento, visto como fundamental para preservar o diálogo político e econômico mesmo diante de divergências diplomáticas.

Taxação dos super-ricos deve estar novamente na pauta

Durante um briefing do Itamaraty com jornalistas, o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros, confirmou que a proposta de taxação dos super-ricos deve aparecer mais uma vez no texto final.

Segundo ele, parágrafos sobre o tema já estão sendo negociados e um “evento paralelo” deve ser realizado especialmente para discutir mecanismos que ampliem a cobrança tributária sobre grandes fortunas e patrimônios de alta renda. A pauta se tornou uma bandeira crescente entre países em desenvolvimento, que buscam mais equilíbrio fiscal em um cenário de desigualdade global.

Exploração de terras raras: interesse mundial sobre o Brasil

Outro tema sensível que deve constar na declaração envolve os chamados “minerais críticos” – insumos fundamentais para tecnologias de energia limpa, baterias e setores estratégicos. O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do planeta e tem sido pressionado pelos Estados Unidos para liberar a exploração de forma mais ampla.

A posição defendida pelo governo Lula vai em outra direção: mais que exportar matéria-prima, o país quer desenvolver cadeia produtiva, gerar valor, industrializar e garantir que os ganhos não fiquem apenas com grandes economias. De acordo com estimativa citada pelo Itamaraty, o Brasil pode expandir sua economia em até R$ 243 bilhões nos próximos 25 anos se investir na produção de minerais críticos.

A prioridade também interessa à África do Sul e a outros países emergentes, que desejam sair do papel de fornecedores baratos para se tornarem protagonistas da própria riqueza.

Tensões entre EUA e Venezuela não devem entrar na declaração

Questionado se o conflito diplomático envolvendo Estados Unidos e Venezuela seria abordado, o embaixador negou. Segundo ele, há um esforço para que a declaração não entre em detalhamento político excessivo, evitando que temas sensíveis possam travar o consenso final do encontro.

A proposta em negociação pretende mencionar apenas alguns conflitos globais de forma simplificada, preservando o foco econômico e financeiro do G20.

Agenda intensa na África e encontro com Moçambique

Lula chega ao evento no domingo, participa das reuniões e se reúne com os presidentes da Índia e da África do Sul. No mesmo dia, embarca para Moçambique, onde terá jantar com o chefe de Estado e reuniões bilaterais.

Na segunda-feira (24), está previsto um encontro empresarial no hotel em que a comitiva brasileira ficará hospedada, além da assinatura de acordos de cooperação nas áreas de saúde, agricultura e educação.

Em um momento em que o Brasil tenta recuperar protagonismo internacional, a viagem pode marcar mais um passo importante de reafirmação diplomática, mostrando que, mesmo sem os Estados Unidos na mesa, o país pretende continuar defendendo diálogo, crescimento e equilíbrio global: valores que, como Lula tem repetido, são essenciais para um mundo menos desigual e mais atento às urgências coletivas do planeta.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Ricardo Stuckert/PR

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