Governo divulga nomes dos chefes do tráfico mortos; arsenal apreendido mostra uso de armas da Europa, drones e táticas de guerrilha.
O Rio de Janeiro amanheceu nesta semana com o peso de uma ferida aberta. Uma megaoperação policial, considerada a mais letal da história do país, transformou os complexos do Alemão e da Penha em cenário de guerra, deixando 121 mortos; entre eles, quatro policiais. O governo fluminense divulgou parte da lista dos suspeitos mortos e revelou que a maioria tinha ligação direta com o Comando Vermelho (CV), facção que há anos dita o ritmo do medo nas comunidades.
Enquanto a poeira ainda assentava sobre os morros, uma verdade incômoda emergia: o crime organizado no Rio atingiu um patamar de poder e sofisticação bélica sem precedentes.
Os mortos e a força do CV
Dos 99 suspeitos já identificados, 78 possuíam antecedentes criminais, e 42 estavam com mandados de prisão em aberto. Entre os mortos estão nomes de peso do tráfico nacional, que comandavam operações criminosas em diversos estados do país.
Entre eles, “PP”, apontado como chefe do tráfico no Pará; “Chico Rato” e “Gringo”, ambos líderes em Manaus (AM); “Mazola” e “DG”, chefes da Bahia; “Fernando Henrique dos Santos”, de Goiás; e “Russo”, que atuava em Vitória (ES). A lista mostra o alcance nacional do Comando Vermelho, que não apenas domina territórios no Rio, mas também influencia o tráfico em vários estados.
Armas europeias, drones e táticas de guerrilha
O relatório das forças de segurança é alarmante. Entre os 91 fuzis apreendidos na operação, há armas de uso das forças armadas de países como Venezuela, Argentina, Peru e Brasil. A maioria dos modelos é de calibres 5.56 e 7.62, muitos fabricados na Europa e trazidos ao país por rotas que passam pelo Paraguai.
A Polícia Civil aponta que os criminosos têm recorrido a estratégias engenhosas para driblar o controle de fronteiras, transportando peças desmontadas e adquirindo componentes pela internet. O resultado é um verdadeiro “arsenal de guerra”, que inclui fuzis de modelo G3, AK-47 e FAL; armas de alto poder destrutivo usadas por exércitos regulares.
Mas o avanço do CV vai além das armas. A facção também tem se modernizado no uso de tecnologia. Durante os confrontos, criminosos lançaram granadas contra os policiais utilizando drones: os mesmos equipamentos usados para monitorar operações e planejar rotas de fuga.
De acordo com uma denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), um dos líderes da facção, conhecido como “Gardenal”, era o responsável por orientar a compra dos drones e desenvolver estratégias de vigilância aérea. Em mensagens interceptadas, ele chegou a dizer: “A gente tem que se adequar à tecnologia, entendeu?”.
O retrato cruel da guerra
A operação revelou também o envolvimento de mulheres em funções estratégicas dentro da facção. Uma delas, conhecida como “Japinha do CV”, considerada “linha de frente” no tráfico, foi morta em confronto. Ela usava roupas camufladas, parte da nova estratégia do grupo para confundir as forças de segurança.
Essas cenas mostram o quanto o crime se reinventou, misturando táticas de guerra e tecnologia de ponta em um território onde a presença do Estado ainda é marcada por tiros, medo e ausência.
O poder das armas no Rio
Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam a dimensão do problema: entre janeiro e setembro deste ano, foram apreendidos 593 fuzis no estado do Rio de Janeiro: o maior número desde 2007. No Brasil inteiro, foram recolhidos 1.471, e quase 40% estavam em solo fluminense. Na prática, de cada cinco fuzis apreendidos no país, dois estão no Rio.
A estatística reflete não apenas o tamanho da facção, mas também a fragilidade de um sistema que, mesmo com grandes operações, parece enxugar gelo diante do poder das organizações criminosas.
Reflexão: o preço da guerra
O saldo dessa megaoperação é brutal. Mais de uma centena de mortos, comunidades aterrorizadas e famílias destroçadas. Se, de um lado, o Estado exibe sua força, do outro, o crime mostra que está cada vez mais estruturado e ousado.
O Rio continua sendo o retrato mais cru da desigualdade brasileira: onde o fuzil fala mais alto que a voz da justiça e onde a paz parece sempre adiada para o próximo amanhecer.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reuters/Ricardo Moraes













