Ação conjunta entre polícias Civil e Militar tenta conter avanço do Comando Vermelho e prender lideranças criminosas após mais de um ano de investigação; confrontos deixam feridos, mortos e serviços suspensos nas comunidades.
O amanhecer desta terça-feira (28) trouxe cenas de desespero e tensão para os moradores dos Complexos do Alemão e da Penha, na zona Norte do Rio de Janeiro. O som dos tiros ecoou pelas vielas, helicópteros sobrevoaram a região e nuvens de fumaça encobriram o céu: uma imagem que muitos descrevem como uma verdadeira “zona de guerra”. A megaoperação das forças de segurança, batizada de Operação Contenção, tem como objetivo conter o avanço territorial do Comando Vermelho (CV) e cumprir mandados de prisão contra suas lideranças.
Confrontos e clima de guerra nas comunidades
Imagens obtidas por emissoras de TV e compartilhadas nas redes sociais mostram ruas em chamas, tiroteios intensos e o uso de drones por criminosos para lançar granadas. Em um dos vídeos, é possível ver tiros de traçante cortando o céu, num cenário que traduz o clima de medo vivido por milhares de famílias presas no fogo cruzado.
Segundo informações das forças de segurança, 2.500 agentes participam da operação, que é resultado de mais de um ano de investigações conduzidas pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE). O objetivo é cumprir 100 mandados de prisão, sendo 30 contra criminosos de outros estados, principalmente do Pará, que teriam se refugiado nas comunidades do Rio.
Prisões, feridos e apreensões
Até a última atualização, 25 pessoas foram presas, entre elas um suspeito apontado como operador financeiro de Edgar Alves de Andrade, o “Doca” ou “Urso”, um dos chefes do Comando Vermelho. Outros dois suspeitos da Bahia morreram em confronto, e dois foram baleados e estão sob custódia no Hospital da Penha.
Durante a operação, três moradores foram atingidos por balas perdidas e levados ao Hospital Getúlio Vargas. Uma das vítimas, uma mulher que estava na academia, foi ferida de raspão e já recebeu alta. Um policial do Bope também foi baleado de raspão na perna durante incursão em área de mata no Complexo do Alemão e passa bem. O delegado Bernardo Leal, da DRE, também foi atingido na perna, mas está fora de risco.
As equipes apreenderam dez fuzis, uma pistola, três celulares e nove motocicletas durante as ações desta manhã.
Operação de grande porte e impacto na rotina
A Operação Contenção mobilizou helicópteros, drones, 32 blindados e 12 veículos de demolição do Núcleo de Apoio às Operações Especiais da Polícia Militar, além de suporte logístico e ambulâncias posicionadas para atender ocorrências de emergência.
Segundo o governador Cláudio Castro, a ação representa “a integração das forças de segurança e o fortalecimento da presença do Estado em áreas conflagradas”, destacando que o combate às facções é um compromisso contínuo do governo fluminense.
Os Complexos do Alemão e da Penha reúnem 26 comunidades consideradas estratégicas na disputa territorial entre grupos criminosos. O cumprimento dos mandados deve seguir ao longo do dia em diferentes pontos dessas regiões.
Escolas fechadas, transporte desviado e medo nas ruas
Os confrontos tiveram reflexo direto na rotina da população. Cinco unidades de saúde suspenderam o atendimento, e uma clínica da família mantém apenas o funcionamento interno, sem visitas domiciliares.
Na área da educação, 46 escolas tiveram as aulas suspensas: 28 no Complexo do Alemão, 17 na Penha e uma da rede estadual. A recomendação é que os alunos permaneçam em casa até que a situação se normalize.
No transporte público, 12 linhas de ônibus precisaram ser desviadas para garantir a segurança de motoristas e passageiros, entre elas as linhas 721 (Vila Cruzeiro x Cascadura), 312 (Olaria x Candelária) e 292 (Engenho da Rainha x Castelo).
Uma guerra que ultrapassa os muros da favela
A Operação Contenção escancara, mais uma vez, o desafio de retomar territórios dominados pelo crime e devolver a paz a quem vive refém da violência. A cada disparo, há uma história interrompida, uma mãe que se esconde com os filhos no chão da sala, um trabalhador impedido de sair de casa.
Enquanto o Estado tenta mostrar força, as comunidades continuam convivendo com o medo e com o eco dos tiros que parecem nunca cessar. O Rio de Janeiro segue dividido entre o barulho das armas e o silêncio de quem ainda espera por dias de paz.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reprodução/Redes Sociais













