Home / Nacional / Moraes cobra explicações de Cláudio Castro sobre massacre em operação no Rio que deixou mais de 120 mortos

Moraes cobra explicações de Cláudio Castro sobre massacre em operação no Rio que deixou mais de 120 mortos

STF exige relatório detalhado sobre cumprimento das regras da ADPF das Favelas após megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha

O país amanheceu estarrecido. Em uma das operações policiais mais letais da história do Rio de Janeiro, mais de 120 pessoas morreram; entre elas, quatro policiais em uma incursão das forças de segurança nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte da capital fluminense. A tragédia, que ganhou repercussão nacional e internacional, levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a agir. O ministro Alexandre de Moraes determinou, nesta quarta-feira (29), que o governador Cláudio Castro (PL) apresente explicações detalhadas sobre a ação, conhecida como “retomada territorial”.

STF intervém e cobra transparência

Moraes marcou audiências para a próxima segunda-feira (3 de novembro) e exigiu que o governo do Rio envie, em até 24 horas, um relatório completo sobre o cumprimento das diretrizes fixadas pela ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas: um marco judicial que limita a letalidade policial em comunidades.

O documento solicitado deve conter a justificativa da operação, o número de agentes mobilizados, o balanço de vítimas, as medidas adotadas para evitar abusos, a assistência às famílias afetadas, a comunicação prévia ao Ministério Público e o uso efetivo de câmeras corporais e drones durante a ação.

Segundo o ministro, há “indícios de descumprimento” das regras determinadas pelo STF. A primeira audiência reunirá Castro e seus secretários de Segurança Pública, os comandantes da Polícia Militar e Civil e o superintendente de Polícia Técnico-Científica. Outras reuniões envolverão o Tribunal de Justiça do Rio, a Procuradoria-Geral de Justiça e a Defensoria Pública do Estado.

O massacre e as versões oficiais

A operação, classificada pelo governo estadual como um “sucesso estratégico”, tinha o objetivo de conter a expansão do Comando Vermelho (CV) nas comunidades. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ), 121 mortes foram confirmadas até o final da tarde de quarta-feira, mas a Defensoria Pública acredita que o número real ultrapasse 130 vítimas, incluindo civis que não tinham relação com o tráfico.

Apesar de 80 prisões e grande apreensão de armas e drogas, o saldo humano da ação gerou revolta. Moradores relataram corpos abandonados em áreas de mata, casas destruídas e pânico generalizado. Imagens de câmeras corporais, obrigatórias por decisão judicial, teriam sido “perdidas”, segundo fontes da polícia, o que agravou as suspeitas de irregularidades.

Nas redes sociais, o episódio provocou forte polarização. Enquanto apoiadores do governador exaltam o combate ao crime, críticas se multiplicam contra o que foi chamado de “massacre do Alemão e da Penha”. A maioria dos comentários online, segundo levantamento de monitoramento digital, reprovou a condução da operação.

ADPF das Favelas: o marco judicial em xeque

A intervenção de Moraes acontece dentro da ADPF das Favelas, ação ajuizada em 2019 pelo PSB para reduzir a violência policial em comunidades do Rio. O STF havia aprovado em abril de 2025 um plano de reestruturação da segurança pública no estado, prevendo transparência nas operações, uso de câmeras corporais e participação comunitária.

Agora, o PSB pede investigação federal e acusa Castro de descumprir ordens da Corte, especialmente pela perda das gravações. “Na tentativa de se blindar das críticas, o governador culpa novamente a ADPF pela insegurança pública”, diz a petição enviada ao STF.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) reforçaram o apelo, cobrando explicações urgentes sobre possíveis violações de direitos humanos. O Senado Federal também anunciou que investigará o caso por meio de sua Comissão de Direitos Humanos.

Entre o dever de proteger e o direito de viver

A decisão de Moraes reacende o debate sobre os limites da força policial e o papel do Estado em territórios marcados pela exclusão. Se, de um lado, há o dever de garantir segurança e combater o tráfico, de outro, está o direito fundamental à vida, tantas vezes negligenciado nas comunidades.

Enquanto as autoridades trocam relatórios e responsabilidades, o Rio de Janeiro tenta contabilizar suas perdas e entender como uma ação planejada para “retomar o controle” terminou mergulhando o estado em mais uma tragédia humana.

Em meio às sirenes e ao silêncio das famílias enlutadas, ecoa a pergunta que o país precisa encarar: até quando a paz nas favelas será medida em corpos?

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/STF

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *