Israel afirma ter eliminado Ali Larijani e o chefe da Basij, ampliando a tensão com o Irã; Teerã ainda não confirma as mortes.
A guerra entre Irã e Israel avança para um terreno cada vez mais sensível e simbólico. Não se trata apenas de ataques militares, mas de golpes diretos no coração do poder iraniano. A possível morte de Ali Larijani, uma das figuras mais influentes do regime, junto à alegada eliminação de lideranças paramilitares, revela um cenário de escalada que mistura estratégia, poder e incertezas profundas sobre o futuro da região.
Segundo autoridades israelenses, Larijani teria sido morto na noite de segunda-feira (16), em uma ação considerada de alto impacto. Ao mesmo tempo, o Exército de Israel também afirmou ter eliminado Gholamreza Soleimani, chefe da força paramilitar Basij, ligada à Guarda Revolucionária. O governo iraniano, até o momento, não confirmou oficialmente nenhuma das mortes, o que mantém o clima de tensão e dúvidas no cenário internacional.

Uma peça-chave do regime iraniano
Aos 67 anos, Ali Larijani vinha se consolidando como um dos principais nomes do Irã, especialmente após a morte do líder supremo Ali Khamenei. Sua trajetória mistura poder militar, influência política e protagonismo em momentos decisivos da República Islâmica.
Com forte ligação à Guarda Revolucionária, Larijani participou da guerra contra o Iraque nos anos 1980 e, ao longo das décadas, transitou com habilidade entre diferentes esferas do poder. Foi chefe da emissora estatal, negociador nuclear, presidente do Parlamento por 12 anos e conselheiro direto do líder supremo em temas estratégicos.
Nos últimos meses, voltou ao centro das decisões como chefe do Conselho de Segurança Nacional, sendo apontado por analistas como um dos principais arquitetos da estratégia iraniana no atual conflito.
Entre a política e a repressão
A ascensão recente de Larijani também esteve ligada a momentos de crise interna. Ele ganhou protagonismo ao atuar na repressão a protestos populares e se tornou um símbolo visível do regime em tempos de instabilidade.
Apesar de ser visto como um pragmático, e não necessariamente um radical ideológico, mantinha um compromisso firme com a manutenção do sistema político iraniano. Em meio ao conflito, também adotou um tom crítico em relação aos Estados Unidos e ao presidente Donald Trump, defendendo a preparação do Irã para uma guerra prolongada.
Sua formação acadêmica também chama atenção. Graduado em matemática e ciência da computação, com doutorado em filosofia, Larijani se dedicou ao estudo de Immanuel Kant, o que reforça o perfil de um líder que unia pensamento estratégico e base intelectual.
O papel da Basij e o impacto militar
Paralelamente, Israel afirma ter atingido outro ponto sensível do regime ao eliminar Gholamreza Soleimani, comandante da Basij. A força paramilitar é conhecida por seu papel na segurança interna, repressão a protestos e mobilização de civis em apoio ao governo.
Nomeado diretamente por Khamenei em 2019, Soleimani foi figura central na contenção de levantes antigovernamentais e acabou alvo de sanções internacionais. Sua eventual morte, caso confirmada, representa um golpe relevante na estrutura de controle interno do Irã.
Segundo informações israelenses, outros membros da liderança da Basij também teriam sido mortos no ataque, o que amplia o alcance da operação e sinaliza uma ofensiva direcionada às engrenagens do poder iraniano.
No meio desse cenário de versões conflitantes e silêncio oficial, uma coisa já se impõe com força: a guerra deixou de ser apenas territorial e passou a atingir símbolos, lideranças e estruturas profundas de um país. E, enquanto o mundo aguarda confirmações, permanece a sensação inquietante de que cada novo ataque não apenas destrói alvos estratégicos, mas também redesenha, aos poucos, o destino de uma nação inteira.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters












