Grupo tentou executar homem confundido com agente penal federal; julgamento é visto como marco no enfrentamento ao crime organizado.
O desfecho de um dos episódios mais graves da escalada de violência atribuída ao crime organizado em Rondônia trouxe, nesta semana, uma resposta concreta do Estado. Após dias de julgamento, o Ministério Público Federal conseguiu a condenação de integrantes do Primeiro Comando da Capital envolvidos em um atentado que quase terminou em morte e espalhou medo na capital.
A decisão foi anunciada na última quinta-feira, ao fim de um júri popular iniciado na segunda-feira, que analisou a tentativa de homicídio ocorrida em junho de 2020. À época, a vítima foi alvo de uma emboscada armada por criminosos que acreditavam se tratar de um agente da Penitenciária Federal.
Condenações e penas aplicadas
A ação penal envolveu dez acusados. Nesta etapa, cinco homens e uma mulher foram levados a julgamento. Os cinco homens foram condenados por homicídio tentado e por integrar organização criminosa armada, com penas que variam de 10 anos e meio a 12 anos e três meses de prisão.
A mulher foi absolvida, por clemência, da acusação de homicídio tentado, mas acabou condenada pelo crime de organização criminosa armada, com pena fixada em três anos e seis meses de prisão. Ainda cabe recurso contra o veredicto. Os outros quatro denunciados devem ser julgados em abril.
Atuação do MPF no júri
O Ministério Público Federal foi representado no julgamento pelo procurador da República Reginaldo Trindade, responsável pelo caso, além dos procuradores Alfredo Carlos Gonzaga Falcão Junior, Bruno Silva Domingos e Roberto Moreira de Almeida, integrantes do Grupo de Apoio ao Tribunal do Júri, equipe especializada em processos de maior complexidade.
Reginaldo Trindade destacou a articulação institucional e o preparo do MPF para enfrentar organizações criminosas de grande porte. Segundo ele, a atuação conjunta e qualificada dos servidores foi decisiva para o resultado alcançado no julgamento.
Como o atentado foi planejado
As investigações apontaram que o crime fez parte de uma sequência de ataques promovidos pelo PCC contra agentes do sistema prisional. Em 2020, os criminosos atraíram a vítima por meio de um perfil falso nas redes sociais, estabeleceram conversas íntimas e marcaram um encontro amoroso.
Na noite de 4 de junho, o homem aguardava no local combinado, em uma motocicleta, quando foi surpreendido por integrantes da facção que chegaram em três veículos. Diversos disparos de pistola foram efetuados, mas nenhum atingiu a vítima, que conseguiu escapar.
O MPF demonstrou que parte dos acusados veio do Paraná para organizar e executar o atentado. Em Rondônia, com apoio de membros locais da facção, alugaram uma casa como base de apoio e adquiriram armas, celulares, veículos, coletes e outros materiais. Segundo depoimentos, o plano era assassinar ao menos um entre quatro agentes do sistema prisional.
Justiça, sociedade e enfrentamento ao PCC
Para o procurador Reginaldo Trindade, o julgamento ganha ainda mais relevância diante do avanço da violência promovida por facções criminosas. Ele ressaltou a atuação dos advogados, defensores públicos e, sobretudo, do Conselho de Sentença, que demonstrou atenção, preparo e compromisso ao longo do júri.
Segundo ele, o PCC testa constantemente os limites do Estado brasileiro, o que torna indispensável a atuação firme das instituições e o envolvimento da sociedade. O resultado do julgamento, afirmou, representa um alento em meio a uma guerra longa e complexa contra o crime organizado.
Mais do que uma condenação, a decisão simboliza um recado claro de que ataques armados, mesmo quando não resultam em morte, não ficarão impunes. Em um cenário de desafios permanentes à segurança pública, cada resposta da Justiça se transforma em um passo essencial para reafirmar a autoridade do Estado e a proteção da sociedade.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/MPF – RO













