Assembleia Geral das Nações Unidas começa sob clima tenso, com Brasil e EUA defendendo visões opostas sobre soberania, liberdade de expressão, Palestina e clima.
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subir ao púlpito da ONU para abrir a 79ª Assembleia Geral, no dia 23 de setembro, sua principal mensagem estará resumida em uma palavra: soberania. Para ele, trata-se da recusa em aceitar ingerências externas sobre os destinos do Brasil e de outras nações emergentes. Instantes depois, será a vez de Donald Trump discursar. O presidente dos Estados Unidos, também em meio a turbulências políticas internas, levará ao mesmo palco a mesma palavra-chave, mas com um sentido totalmente diferente.
Duelo diplomático
Diplomatas descrevem o encontro como um verdadeiro “duelo de narrativas”. Lula pretende reforçar que soberania significa proteger países de chantagens de grandes potências e preservar a independência nacional frente a pressões externas, inclusive em temas como a regulação de plataformas digitais e a defesa da democracia contra o ódio e a desinformação.
Trump, por outro lado, usa o conceito para defender o afastamento dos EUA de organismos internacionais e de qualquer mecanismo que sua base chama de “globalismo”. Para a Casa Branca, soberania é rejeitar a autoridade de instituições como a ONU e a OMS sobre as decisões de Washington.
Pautas em colisão
Os pontos de atrito não param por aí. Enquanto Trump promete reforçar seu discurso em defesa da liberdade de expressão, denunciando o que chama de censura em países como o Brasil, Lula deve alertar para os riscos da manipulação e da propagação de ódio nas redes sociais. A tensão nesse tema é tanta que o próprio Trump chegou a abrir um processo contra o ministro Alexandre de Moraes, nos EUA, acusando-o de censura.
Na questão da Palestina, os discursos também seguirão direções opostas. Lula deve condenar as mortes em Gaza e reiterar a defesa da criação de um Estado palestino soberano, enquanto os EUA, na semana passada, foram um dos poucos países a votar contra uma resolução da ONU favorável ao tema.
E quando o assunto for o clima, Lula pretende convocar líderes mundiais para comparecer à Conferência do Clima em Belém, no fim do ano, defendendo compromissos ambiciosos. Trump, por sua vez, não enviará sequer uma delegação americana e mantém sua rejeição ao Acordo de Paris.
Expectativa global
Para além do embate pessoal entre os dois presidentes, o que se desenha é um choque de visões sobre o próprio futuro da ordem internacional. Lula busca apoio de parceiros como China e África do Sul, que também defendem a soberania como proteção contra imposições externas. Já Trump pretende reafirmar os EUA como protagonistas de uma agenda que rejeita o multilateralismo.
O tom da abertura da Assembleia Geral será, portanto, um termômetro não apenas das relações entre Brasil e Estados Unidos, mas também da capacidade da ONU de seguir sendo espaço de diálogo em tempos de crescentes divisões. Em meio a tantas crises, a cena de Lula e Trump disputando palavra por palavra diante do mundo promete marcar a memória da diplomacia internacional e talvez indicar os caminhos que cada nação deseja seguir.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Uol Notícias













