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Na ONU, Zelensky denuncia recusa russa a cessar-fogo enquanto Trump muda tom sobre guerra

Presidente ucraniano fala em sequestro de crianças, alerta para risco nuclear e vê EUA oscilando entre apoio e desconfiança.

Na tribuna da Assembleia Geral da ONU, Volodymyr Zelensky voltou a colocar a tragédia da Ucrânia diante dos olhos do mundo. Em meio a mais de três anos de guerra, ele afirmou nesta quarta-feira (24) que não há cessar-fogo porque a Rússia se recusa a qualquer acordo. Com voz firme, denunciou ainda o sequestro de milhares de crianças ucranianas por Moscou e fez um apelo emocionado pela devolução delas às famílias.

A sombra nuclear e a usina de Zaporizhzhia

Zelensky alertou para o risco do uso de armas nucleares no conflito e acusou a Rússia de continuar atacando a usina de Zaporizhzhia, uma das maiores da Europa. A tensão cresce enquanto o território ucraniano segue sob ocupação parcial: cerca de um quinto do país está nas mãos russas desde a invasão em larga escala de 2022, que resultou na anexação de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia por decreto de Vladimir Putin.

Trump surpreende com nova retórica

O discurso de Zelensky ecoou logo após declarações surpreendentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que mudou sua retórica sobre o conflito. Na terça-feira (23), ele afirmou acreditar que a Ucrânia pode reconquistar todas as terras tomadas pela Rússia e que este seria o momento ideal para agir, diante do que chamou de “grandes problemas econômicos” enfrentados por Moscou.

A fala marcou uma guinada: até então, Trump vinha pressionando por um acordo de paz, sem demonstrar confiança em uma vitória ucraniana. O gesto foi lido como uma sinalização de maior apoio a Kiev.

Kremlin reage e minimiza crise

A Rússia não deixou passar em branco. O porta-voz Dmitry Peskov rebateu as falas de Trump, classificando-as como “equivocadas” e prometendo fornecer “informações reais” a Washington sobre a guerra. Segundo ele, a economia russa está estável, mesmo sob sanções, e os avanços militares; embora lentos, fazem parte de uma estratégia deliberada, que mantém a Ucrânia “na defensiva”.

Moscou também confirmou que o chanceler Sergei Lavrov se reunirá com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em Nova York, em um movimento que busca recompor, ainda que lentamente, as relações bilaterais. Peskov admitiu, no entanto, que o processo tem avançado “muito mais devagar do que o desejado”.

Entre cartomantes e ofensivas de drones

A reação russa foi acompanhada de ironias. Dmitry Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança, disse que Trump “vive em uma realidade alternativa”. Já Margarita Simonyan, chefe da mídia estatal, comparou as promessas americanas a previsões de uma cartomante que ilude sua cliente com sonhos impossíveis.

Enquanto as narrativas se chocam, o campo de batalha segue em desgaste. A Ucrânia aposta em ataques ousados dentro do território russo, mirando infraestrutura militar, enquanto Moscou intensifica bombardeios aéreos e ofensivas com drones. Ambos negam mirar civis, mas as estatísticas de mortes: majoritariamente ucranianas, desmentem esse discurso. Estima-se que 1,2 milhão de pessoas tenham sido mortas ou feridas desde o início da guerra.

Um grito diante do mundo

O cenário exposto na ONU mostra não apenas a violência implacável da guerra, mas também as contradições da diplomacia internacional. Zelensky clama pela proteção de sua população e pela devolução de suas crianças. Trump oscila entre acenos e pressões. Putin insiste em seu avanço lento, mas estratégico. No fundo, o que está em jogo é a memória que ficará deste conflito para a humanidade: se será lembrado como a guerra que endureceu fronteiras ou como o momento em que o mundo escolheu, de fato, lutar pela vida e pela dignidade de um povo.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/CNN

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