Em encontro reservado com deputados, presidente antecipa o clima eleitoral, cita Tarcísio de Freitas como possível adversário e ignora Flávio Bolsonaro, nome escolhido pelo PL.
Entre pratos servidos, conversas informais e olhares atentos, o jantar promovido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na noite desta quarta-feira (4), na Granja do Torto, teve menos tom de confraternização e mais cara de pré-campanha. Diante de deputados aliados, Lula deixou escapar uma frase que resume o espírito do encontro e o momento político que se aproxima: “Não está ganho ainda, mas eu vou ganhar”.
A declaração, feita de maneira direta, foi interpretada por parlamentares como um sinal claro de que o presidente já começa a tratar a eleição presidencial de outubro como uma disputa em curso. Mais do que isso, Lula passou a desenhar, ainda que informalmente, o mapa dos possíveis adversários.
Tarcísio entra no radar e Flávio Bolsonaro fica fora
Durante a conversa com os deputados, Lula citou nominalmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como um dos nomes que poderiam disputar o Palácio do Planalto. O gesto chamou atenção porque Tarcísio, publicamente, descarta concorrer à Presidência e afirma que buscará a reeleição no governo paulista.
Além dele, o presidente mencionou outros governadores cotados no campo da oposição, como Ratinho Júnior (Paraná), Romeu Zema (Minas Gerais) e Ronaldo Caiado (Goiás). Segundo relatos feitos à CNN, Lula afirmou que pretende comparar os resultados de seus governos com as gestões estaduais desses líderes, indicando que esse confronto de números e entregas deve ganhar espaço em seus discursos.
O que mais chamou a atenção nos bastidores, no entanto, foi a ausência de um nome: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como candidato da oposição, Flávio não foi citado em nenhum momento pelo petista, apesar de aparecer em crescimento nas pesquisas eleitorais.
Pesquisas acendem alerta no Planalto
O silêncio de Lula sobre Flávio Bolsonaro ocorre em um contexto sensível. Levantamento do instituto Meio/Ideia, divulgado em 4 de fevereiro de 2026, aponta empate técnico entre os dois em um eventual segundo turno: 45,8% para Lula e 41,1% para Flávio, dentro da margem de erro de 2,5 pontos percentuais.
Outro levantamento, do instituto Paraná Pesquisas, também indica cenário semelhante, com 44,8% para Lula e 42,2% para o senador do PL. Nos corredores do Congresso, deputados do Centrão avaliam que o avanço de Flávio começa a incomodar o Palácio do Planalto, ainda que o presidente, publicamente, prefira mirar outros adversários.
Acenos ao Congresso e busca por estabilidade
Durante o jantar, Lula também fez gestos claros de aproximação com a Câmara dos Deputados. O presidente elogiou a condução do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Casa, reforçando a tentativa do governo de manter uma relação mais estável com o Legislativo em um ano decisivo.
O movimento se soma a outras articulações em curso. Lula já sinalizou que pretende se reunir com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e com líderes partidários após o Carnaval, ampliando o diálogo e costurando alianças regionais que serão fundamentais na disputa eleitoral.
Um jantar que diz mais do que parece
Longe de ser apenas um encontro social, o jantar na Granja do Torto foi lido por muitos como o início de uma nova fase do governo Lula: a de assumir, sem rodeios, que o debate eleitoral já começou. Ao citar adversários, ignorar outros e reforçar pontes com o Congresso, o presidente parece preparar o terreno para uma campanha baseada na comparação direta de gestões, resultados e narrativas.
No silêncio sobre alguns nomes e na ênfase em outros, Lula deixou no ar uma mensagem que vai além da frase dita à mesa. A eleição ainda não começou oficialmente, mas, nos bastidores do poder, ela já está sendo jogada; movimento por movimento.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil













