Escalada militar entre Islamabad e o governo do Talibã reacende conflito histórico na fronteira e eleva temor de nova guerra regional.
O céu de Cabul voltou a ser iluminado por explosões durante a madrugada. Moradores acordaram em pânico, crianças choraram, famílias ficaram em vigília à espera do próximo estrondo. A guerra, que muitos acreditavam contida por um frágil cessar-fogo, voltou com força total entre Paquistão e Afeganistão.
O governo paquistanês afirmou nesta sexta-feira (27), que ataques aéreos atingiram 22 alvos militares afegãos, deixando 274 mortos entre oficiais e militantes do Talibã desde a noite de quinta-feira. Segundo o porta-voz militar Ahmed Sharif Chaudhry, ao menos 12 soldados paquistaneses também morreram nos confrontos.
Como a nova ofensiva começou
A escalada teve início após forças do Talibã lançarem ataques contra posições paquistanesas ao longo da fronteira de 2.575 quilômetros que separa os dois países. A região, marcada por montanhas e áreas desérticas, é historicamente instável e disputada.
Cabul afirmou que suas ações foram uma resposta a bombardeios paquistaneses realizados dias antes contra supostos campos de militantes em território afegão, que teriam deixado ao menos 18 mortos.
Em retaliação, Islamabad anunciou a Operação Ghazab Lil Haqq, traduzida como Operação Fúria Justa. Os ataques atingiram a capital Cabul, a província de Paktia e Kandahar, considerada o berço espiritual do Talibã e base do líder do grupo, Hibatullah Akhundzada.
O ministro da Defesa do Paquistão declarou que a paciência do país se esgotou e classificou o momento como de guerra aberta.
Relatos de medo em Cabul
Uma moradora da capital afegã descreveu a madrugada como aterrorizante. Segundo ela, a família foi acordada por uma forte explosão, seguida de tiros e clarões no céu. “Desde a primeira explosão, as luzes da maioria das casas continuam acesas”, relatou. O medo de novos ataques impediu que muitos moradores dormissem.
Os números de mortos variam conforme a fonte. O Paquistão afirma ter eliminado 133 combatentes do Talibã apenas na ofensiva mais recente, enquanto autoridades afegãs falam em oito soldados mortos. A verificação independente é difícil devido ao isolamento das áreas atingidas.
No distrito de Bajaur, no noroeste paquistanês, uma granada de morteiro disparada do lado afegão atingiu uma residência e feriu cinco pessoas, incluindo duas crianças.
Um conflito com raízes profundas
A tensão entre os dois países não é nova. Após a invasão do Afeganistão em 2001, liderada pelos Estados Unidos e pela OTAN, o Talibã encontrou refúgio em áreas do Paquistão. Anos depois, o grupo retomou o poder em Cabul, após a retirada americana em 2021.
Desde então, Islamabad acusa o Afeganistão de abrigar o Talibã paquistanês, conhecido como TTP, responsável por ataques dentro do Paquistão. Cabul nega as acusações.
Dados do Exército paquistanês indicam que mais de 1.200 pessoas, entre civis e militares, morreram em ataques militantes no país apenas em 2025. O número representa o dobro do registrado no ano da retirada americana.
Desigualdade militar e risco de escalada
A diferença de poderio militar entre os dois países é significativa. O Paquistão é uma potência nuclear, com cerca de 660 mil militares na ativa e um arsenal que inclui caças F-16 e jatos JF-17. Já o Afeganistão, sob controle do Talibã, conta com uma força estimada em menos de 200 mil combatentes e capacidade aérea limitada.
Apesar da disparidade tecnológica, o Talibã tem histórico de guerra assimétrica e longa experiência em conflitos prolongados.
Analistas alertam que a situação pode sair do controle caso não haja mediação internacional. Em confrontos anteriores, países como Arábia Saudita, Turquia e Catar atuaram para conter a escalada.
Enquanto governos trocam acusações e mísseis cruzam a fronteira, quem paga o preço imediato são civis que vivem sob o medo constante. Mais do que uma disputa territorial, o que se desenha é um ciclo de retaliação que ameaça aprofundar a instabilidade em uma das regiões mais sensíveis do planeta. E, quando as luzes permanecem acesas durante a madrugada por medo de bombas, fica claro que a guerra nunca é apenas estratégica, ela é profundamente humana.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Getty Images













