Polícia Federal analisa dados do aparelho de Daniel Vorcaro após reportagem apontar suposta troca de mensagens com o ministro Alexandre de Moraes.
A disputa de versões em torno do caso Banco Master ganhou um novo capítulo que pode ser decisivo para esclarecer os fatos. Enquanto documentos e declarações públicas alimentam o debate, peritos trabalham nos bastidores para tentar acessar o que pode estar escondido dentro de um celular: mensagens apagadas que, se recuperadas, podem lançar nova luz sobre a investigação.
A Polícia Federal atua para recuperar mensagens deletadas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. A análise ocorre após reportagem do jornal O Globo apontar uma suposta troca de mensagens entre o empresário e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Mensagens de visualização única
Segundo especialistas, parte das mensagens teria sido enviada utilizando o recurso de “visualização única” do WhatsApp. Nesse modo, o conteúdo desaparece depois de aberto, o que dificulta a recuperação por softwares forenses tradicionais.
O perito em crimes digitais Wanderson Castilho explicou que, nesse tipo de envio, o conteúdo permanece armazenado nos servidores da Meta, empresa responsável pelo aplicativo. Por isso, o acesso direto ao conteúdo pelo aparelho pode se tornar mais limitado.
Já mensagens comuns que tenham sido excluídas do dispositivo podem, em muitos casos, ser recuperadas por ferramentas especializadas utilizadas em investigações.
Estratégias para ocultar conversas
O especialista também chamou atenção para uma prática que tem sido usada por investigados em diferentes casos: transformar conversas em imagens antes de enviá-las.
Segundo ele, algumas pessoas fazem capturas de tela das mensagens, colam essas imagens em blocos de notas ou arquivos e as enviam como visualização única. Mesmo que o conteúdo original desapareça, o arquivo de imagem pode deixar rastros no dispositivo.
De acordo com Castilho, esse detalhe pode ser crucial para a investigação.
Quando alguém faz um print, o conteúdo passa a existir como foto no aparelho. Mesmo que a imagem seja apagada posteriormente, ferramentas de perícia digital ainda podem ter condições de recuperar o arquivo.
Rastreamento ainda é possível
Apesar das limitações impostas por certos recursos de privacidade, o especialista afirma que ainda existe margem para rastrear a comunicação.
Segundo ele, quando os investigadores conseguem acesso ao aparelho desbloqueado, é possível identificar informações como remetente, destinatário, tipo de anexo enviado e o horário da troca de mensagens.
No Brasil, softwares especializados em quebra de senhas e extração de dados são utilizados apenas por órgãos autorizados, como a Polícia Federal, as polícias civis e o Ministério Público.
Como ocorre a quebra de segurança
O processo de acesso a dados em celulares pode ocorrer de duas formas principais. A primeira acontece quando o aparelho está ligado e já foi desbloqueado anteriormente. Nesse caso, a análise tende a ser mais simples.
A segunda situação é considerada mais complexa: quando o dispositivo está desligado e precisa ser acessado sem que a senha seja inserida novamente.
Castilho também explicou que, embora aplicativos como o WhatsApp utilizem criptografia durante a transmissão das mensagens, esse sistema deixa de proteger o conteúdo quando ele chega ao aparelho do destinatário.
Na prática, isso significa que, se os investigadores conseguirem acesso ao dispositivo, as mensagens podem ser visualizadas já descriptografadas.
O que dizem as partes
O ministro Alexandre de Moraes negou ter recebido mensagens enviadas por Daniel Vorcaro no dia em que o banqueiro foi preso, em novembro de 2025.
Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal, a Corte informou que uma análise técnica dos dados telemáticos do celular do empresário não encontrou mensagens vinculadas ao contato do ministro.
Segundo o comunicado, os registros examinados indicam que as mensagens enviadas em 17 de novembro de 2025 no formato de visualização única não correspondem ao telefone de Moraes nos arquivos analisados.
A Corte também afirmou que não poderia divulgar o nome do possível destinatário das mensagens por causa do sigilo determinado na investigação conduzida pelo ministro André Mendonça.
Após a manifestação do tribunal, o jornal O Globo reafirmou as informações publicadas na reportagem original.
Enquanto versões se confrontam publicamente, a resposta definitiva pode estar guardada em fragmentos digitais aparentemente invisíveis. Em investigações como essa, muitas vezes são os detalhes silenciosos da tecnologia que acabam revelando aquilo que palavras e notas oficiais ainda não conseguiram esclarecer.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Instagram













