Governo quer evitar desgaste na imagem do indicado de Lula ao STF, mas adversários apostam na rejeição e dizem que Messias enfrentará forte dificuldade no Senado.
Em Brasília, a disputa pelo futuro do Supremo Tribunal Federal ganhou contornos de tensão, pressa e simbolismo. Enquanto o Palácio do Planalto se organiza para tentar realizar ainda este ano a sabatina de Jorge Messias atual advogado-geral da União e indicado pelo presidente Lula ao STF, a oposição prepara um movimento para tentar impor ao governo uma derrota que seria histórica. O Senado rejeitou apenas cinco indicações em 134 anos, todas em 1894. Para adversários, este poderia ser o “sexto capítulo” dessa lista raríssima.
Fontes ligadas ao governo reconhecem o clima de apreensão e explicam o motivo da pressa: Messias não poderia ficar meses “exposto” durante o recesso parlamentar, retornando ao debate público apenas em fevereiro, o que aumentaria o desgaste político e as pressões contra sua nomeação.
Oposição vê ambiente hostil e aposta em derrota
Senadores de oposição avaliam que Messias terá dificuldades já na etapa inicial. O senador Izalci Lucas (PL-DF) afirmou à CNN Brasil que o governo pode enfrentar resistência até para pautar a sabatina. Para ele, o desempenho de Paulo Gonet na recondução à PGR foi um sinal claro de que o clima não é favorável. Gonet foi aprovado por margem estreita, após quatro votos conquistados com apoio direto de Davi Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
“Messias não tem esse apoio”, disse Izalci, que afirmou que receberá o indicado caso seja procurado, mas adiantou que deve votar contra. Segundo ele, ainda há restrições relacionadas à atuação de Messias no governo Dilma, quando teria sido porta-voz de articulações políticas que desagradaram parte do Congresso.
Governo trabalha apoio discreto e articulação reservada
Nos bastidores, fontes do Planalto dizem que Messias já conta com apoios “não explícitos” e com a retaguarda de líderes evangélicos de grande influência nacional. A estratégia é simples: trabalhar de forma silenciosa, mantendo conversas diretas para evitar que o desgaste cresça nas semanas que antecedem a votação.
A avaliação interna é que Messias precisa construir pontes, visitar gabinetes e demonstrar que sua postura será técnica, constitucional e equilibrada. O maior desafio, porém, será transformar essa percepção em votos: em um Senado mais dividido e atento ao peso simbólico deste momento político.
Perfil progressista preocupa a oposição
Nos círculos políticos, parte da resistência tem relação direta com a interpretação sobre o perfil de votações do indicado. Apesar de ser evangélico, articuladores da oposição avaliam que Messias tende a se alinhar a pautas progressistas. A leitura seria inversa ao caso de Cristiano Zanin, que chegou ao Supremo sem identificação religiosa e surpreendeu parte dos parlamentares ao adotar posicionamentos mais conservadores em temas específicos.
Messias se juntaria à primeira turma do STF, ao lado de Zanin e Flávio Dino, grupo ligado ao atual período de indicações e que recebeu destaque nos julgamentos envolvendo investigações de atos antidemocráticos.
Indicação reforça prerrogativa presidencial
Para analistas políticos, a escolha de Messias também carrega mensagem institucional: reafirma que indicar ministros ao STF é prerrogativa exclusiva do Executivo. Ao mesmo tempo, acena a setores progressistas, especialmente aqueles ligados à advocacia e a atores que acompanharam de perto grandes embates judiciais recentes.
Uma decisão que pode marcar o tempo político
Agora, o desfecho está nas mãos do Senado, e o Planalto corre contra o relógio para tentar garantir o aval antes do recesso. A oposição, por sua vez, trabalha para transformar a sabatina em um raro momento de reversão histórica.
Se Jorge Messias for aprovado, será lembrado como o ministro que enfrentou uma das sabatinas mais tensas dos últimos anos. Se for rejeitado, seu nome entrará para uma lista quase centenária. De qualquer forma, esse capítulo revela muito sobre o Brasil de agora: um país dividido, em que cada cadeira, cada voto e cada decisão do Supremo pode significar não apenas um gesto jurídico; mas um sinal claro de para onde a democracia brasileira quer caminhar.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/REUTERS













