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Planalto vê CPI do Crime Organizado como maior risco político que investigação do INSS

Governo teme que oposição use debate sobre segurança pública para enfraquecer a narrativa petista no Congresso.

O Palácio do Planalto acendeu o sinal de alerta. A CPI do Crime Organizado, que será instalada nesta terça-feira (4) no Senado, é vista dentro do governo como uma ameaça política mais perigosa do que a própria CPMI que investiga os descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. A avaliação é de que o tema da segurança pública pode se tornar o principal campo de disputa entre governo e oposição — e, nesse terreno, o PT tem mais a perder do que a ganhar.

A comissão foi criada para investigar a atuação de facções criminosas e milícias, e ganhou força após a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos, entre eles quatro policiais. O episódio reacendeu o debate sobre a escalada da violência e colocou a segurança pública no centro da pauta nacional.

CPI pode fortalecer discurso da direita

Entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), há o temor de que a direita consiga dominar o debate no Congresso com a narrativa do enfrentamento ao crime. Para o Planalto, essa CPI pode dar à oposição a chance de capitalizar politicamente o clamor popular por medidas mais duras, em um momento em que o governo tenta manter o foco em pautas de cunho social e econômico.

Nos bastidores, integrantes da base governista admitem que, se o Planalto for forçado a falar apenas de segurança pública, tende a perder terreno para a oposição, já que o tema é historicamente mais favorável à direita, associada ao discurso da ordem e da repressão, do que à esquerda, que costuma priorizar o debate sobre direitos humanos e políticas de prevenção.

Estratégia para conter danos

Para evitar que a CPI monopolize a agenda política, o Planalto montou uma estratégia de contenção. O objetivo é garantir uma atuação forte da base governista dentro da comissão. Nomes como o líder do governo no Senado, Jacques Wagner (PT-BA), e os senadores Rogério Carvalho (PT-SE), Otto Alencar (PSD-BA) e Alessandro Vieira (MDB-SE), que deve disputar a relatoria, foram escalados para a linha de frente.

Já a oposição deve indicar Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Sergio Moro (Podemos-PR) e Marcos do Val (Podemos-ES), formando um bloco com alto potencial de pressão e repercussão midiática.

Pesquisas orientam discurso do governo

O Planalto e o PT encomendam pesquisas para medir a percepção popular sobre a megaoperação policial no Rio e sobre a própria CPI. O objetivo é calibrar o discurso do governo e evitar desgastes. Lula também foi orientado a não improvisar declarações sobre segurança pública, diante do risco de fornecer munição política aos adversários.

Os levantamentos recentes explicam parte do receio: a pesquisa Genial/Quaest mostrou que 64% dos fluminenses apoiaram a operação policial contra o Comando Vermelho, enquanto o Datafolha apontou que a aprovação do governador Cláudio Castro (PL) atingiu 40%, o maior índice desde 2022.

Em um momento em que o governo tenta reforçar sua imagem com propostas de isenção do Imposto de Renda, tarifa zero no transporte público e revisão da escala 6×1 de trabalho, o tema da segurança surge como um divisor de águas. Se a CPI do Crime Organizado ganhar protagonismo, o Palácio do Planalto sabe que enfrentará uma batalha de narrativa difícil e que o sucesso dependerá não só da articulação política, mas da capacidade de econectar o discurso da esquerda à sensação de segurança que a população tanto deseja.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Agência Senado

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