Ideia de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas gera reação no governo Lula e amplia tensão política às vésperas da disputa presidencial.
Integrantes da cúpula do Partido dos Trabalhadores avaliam que a proposta dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pode representar uma tentativa de interferência do presidente Donald Trump nas eleições presidenciais deste ano no Brasil.
A medida, que enfrenta resistência do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, tem o apoio do senador Flávio Bolsonaro, apontado como pré-candidato à Presidência da República.
No centro da discussão está a possibilidade de equiparar organizações criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), a grupos terroristas internacionais.
Temor de impacto eleitoral
Nos bastidores do Palácio do Planalto, aliados de Lula afirmam que sempre consideraram a possibilidade de uma ofensiva política de Trump na América Latina com o objetivo de fortalecer candidaturas de direita na região. Além do Brasil, países como Peru e Colômbia também terão eleições neste ano.
O diálogo entre Lula e Trump, iniciado após a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas no ano passado, havia reduzido as tensões diplomáticas. No entanto, a retomada da proposta envolvendo as facções voltou a gerar desconfiança dentro do governo brasileiro.
No domingo (8), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre cooperação entre os países no combate ao crime organizado.
O tema também deve fazer parte de um encontro entre Lula e Trump. A reunião, inicialmente prevista para este mês, ainda não tem nova data definida após ser adiada em razão da guerra envolvendo o Irã.
Governo tenta evitar classificação como terrorismo
Enquanto tenta manter o diálogo diplomático com Washington, o governo brasileiro trabalha para impedir que facções criminosas sejam oficialmente classificadas como organizações terroristas.
Segundo integrantes do Planalto, a medida poderia abrir brechas para sanções internacionais e até justificar ações militares sob o argumento de combate ao terrorismo, o que seria interpretado como ameaça à soberania nacional.
O próprio Lula já havia discutido o tema com Trump em dezembro, defendendo uma cooperação internacional no enfrentamento ao crime organizado, mas sem alterar a classificação jurídica das facções no Brasil.
Dossiê entregue por Flávio Bolsonaro
Em maio de 2025, o senador Flávio Bolsonaro entregou a uma comitiva americana enviada por Trump um dossiê produzido por secretarias de segurança pública do Rio de Janeiro e de São Paulo. O documento buscava relacionar as atividades de facções criminosas brasileiras com práticas associadas ao terrorismo.
Representantes do governo americano também se reuniram com técnicos do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que explicaram que, pela legislação brasileira, essas organizações são tratadas como grupos criminosos, e não como entidades terroristas.
Desde então, o Congresso aprovou a chamada Lei Antifacção e avançou na tramitação da PEC da Segurança Pública, iniciativas que o governo tem usado como argumento para demonstrar que o país já adota medidas rigorosas contra o crime organizado.
PT reage e fala em soberania
Nesta segunda-feira (9), o presidente nacional do PT, Edinho Silva, criticou a proposta e afirmou que o Brasil não pode se submeter a decisões externas.
Segundo ele, o país precisa enfrentar o crime organizado com cooperação internacional, mas preservando sua autonomia.
“O governo Lula trabalha para acabar com o crime e atua em aliança com diversos países. Não se deixe levar por respostas simples para problemas complexos. A soberania brasileira não pode ser atacada”, afirmou.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Getty Images













