Estado com maior desmatamento proporcional recebe maquinário bancado com recursos parlamentares; especialistas alertam para risco de agravar a devastação.
Quando pensamos na Amazônia, nos vem logo à mente a imagem de um coração pulsante de vida verdejante; e dói imaginar esse coração sendo fatiado aos poucos. É nesse cenário que Rondônia, estado com a maior taxa proporcional de desmatamento na região, recebeu quase 1 a cada 3 máquinas pesadas financiadas com emendas parlamentares na Amazônia desde 2015: um total de 507 equipamentos que custaram R$ 319 milhões em recursos públicos ao longo de uma década.
O contraste entre a força da floresta e o peso do maquinário é mais do que simbólico: é alarmante.
O maquinário e a floresta
O levantamento inclui tratores de esteira e de pneus, escavadeiras, retroescavadeiras, pá carregadeiras, motoniveladoras e rolos compactadores: instrumentos que, embora possam ter usos legítimos, são vistos por técnicos ambientais como potenciais agravantes do desmatamento, da abertura de estradas sem controle e até da instalação de garimpos ilegais.
Emendas parlamentares e um volume preocupante
Desde 2015, ano em que uma alteração na Constituição mudou a forma como o Orçamento federal é executado, parlamentares brasileiros destinaram mais de R$ 900 milhões em emendas para a compra de máquinas pesadas distribuídas pela Amazônia Legal, com Rondônia concentrando mais de 30% desse total.
Porto Velho no mapa da devastação
Somente a capital, Porto Velho, foi contemplada com 329 desses equipamentos, e a cidade aparece em terceiro lugar no ranking nacional de desmatamento entre municípios, atrás apenas de Altamira e São Félix do Xingu (PA). Especialistas alertam que máquinas desse porte facilitam a remoção de vegetação e transformam a floresta intacta em terreno aberto para exploração ilegal.
Uma política que precisa de mais responsabilidade ambiental
Embora a reportagem tenha buscado um posicionamento do governo de Rondônia sobre esses números, não houve resposta até a publicação do texto. Além disso, a destinação desses equipamentos passou por programas federais, como o Calha Norte, originalmente criado para atuação militar nas fronteiras, mas que hoje é uma das principais vias de repasse de máquinas por meio de emendas parlamentares.
Ao ler esses dados, é difícil não sentir um aperto no peito: a Amazônia, além de ser um tesouro de biodiversidade, abriga modos de vida inteiros, culturas ancestrais e regula nosso clima global. Cada máquina pesada deslocada para dentro da floresta carrega uma história que pode ser de progresso ou de destruição irreversível. Cabe a nós, como sociedade, perguntar onde está nossa prioridade: proteger o pulmão do mundo ou facilitar a sua perda.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Folha – Uol













