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Saída de Ramagem para os EUA acende alerta e expõe fragilidades na vigilância dos condenados do golpe

Fuga do deputado provoca desgaste entre instituições, pressiona órgãos de segurança e levanta questionamentos sobre monitoramento.

Em Brasília, a notícia de que Alexandre Ramagem (PL-RJ) deixou o Brasil sem qualquer restrição oficial caiu como uma bomba. Para autoridades envolvidas no caso do plano de golpe, a fuga do deputado não é apenas um fato isolado: ela mexe com a confiança nas instituições, reabre feridas do 8 de Janeiro e desperta uma sensação de déjà-vu que ninguém queria reviver. No momento em que o país ainda tenta cicatrizar os danos da maior crise democrática recente, a simples pergunta: como ele conseguiu? expõe falhas que agora pesam sobre vários setores do Estado.

Ramagem, condenado a 16 anos de prisão em regime fechado, teria deixado o país de carro por uma fronteira terrestre para, em seguida, embarcar rumo aos Estados Unidos. A PF (Polícia Federal) ainda investiga o trajeto e os detalhes da saída. A viagem surpreendeu autoridades que, apesar de já terem elevado o nível de atenção sobre possíveis riscos de fuga, não tinham qualquer medida oficial que impedisse o parlamentar de deixar o território brasileiro.

Sem comunicação oficial e com atestados médicos

Embora tenha continuado participando de votações na Câmara dos Deputados; inclusive no projeto do PL Antifacção, Ramagem apresentou dois atestados médicos, um de 30 dias e outro de 60, com validade até 12 de dezembro. Os documentos dispensam o deputado de atividades presenciais, mas não configuram licença médica, o que mantém o parlamentar apto a votar.

A Câmara informou que não foi comunicada sobre sua viagem aos EUA e que Ramagem não fez nenhum pedido formal de missão parlamentar no exterior. Em outras palavras: viajou sem aviso, sem registro e sem obrigação de informar.

Alerta interno entre PF, GDF e SSP

A fuga acendeu a luz vermelha dentro da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, da PF e de outros órgãos envolvidos nas investigações do plano golpista. O temor agora é de que outros condenados possam seguir o mesmo caminho.

A realidade é simples e incômoda: com exceção de Jair Bolsonaro, único monitorado por tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar, nenhum dos demais condenados possui controle eletrônico, bloqueio migratório ou fiscalização ativa do Estado. Assim, mesmo com o alerta elevado, não existe ferramenta legal hoje capaz de impedir que outros deixem o país.

Pressão chega ao STF

A reação política não demorou. Na noite de quinta-feira (20), o PSOL pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) a prisão preventiva de quatro ex-ministros de Bolsonaro, alegando risco iminente de fuga após o caso Ramagem. Os nomes citados foram:

  • Anderson Torres (Justiça)
  • Augusto Heleno (GSI)
  • Paulo Sérgio Nogueira (Defesa)
  • Almir Garnier (Marinha)

Até o momento, não há decisão do Supremo sobre o pedido.

Democracia em teste

O episódio escancara algo maior do que a trajetória individual de um deputado. Ele reabre a discussão sobre a capacidade real de o Estado fazer valer condenações históricas, num momento em que a democracia brasileira ainda se reconstrói após o trauma do golpismo.

A fuga de Ramagem deixa no ar uma pergunta que ecoa pelos corredores do poder: é possível fazer justiça se não há vigilância suficiente para assegurar que os condenados cumpram a lei? Mais do que uma questão jurídica, é um teste de maturidade institucional e o país inteiro está assistindo.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados

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