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Segundo mandato de Trump completa um ano e redefine o papel dos EUA no mundo

Tarifaço global, deportações em massa, confrontos diplomáticos e ações militares marcaram os primeiros 12 meses do retorno de Donald Trump à Casa Branca

Um ano depois de reassumir a Casa Branca, Donald Trump volta a dividir o mundo entre apoio fiel e rejeição profunda. O retorno do republicano ao poder não passou despercebido nem dentro dos Estados Unidos nem no cenário internacional. Em apenas 12 meses, decisões duras, discursos inflamados e ações de impacto alteraram rotinas, tensionaram alianças históricas e reacenderam debates sobre os limites do poder presidencial.

Desde janeiro, Trump imprimiu novamente seu estilo imprevisível à Presidência. A agenda combinou medidas severas na política doméstica com uma postura agressiva na economia e nas relações internacionais, reposicionando os Estados Unidos como um ator mais confrontacional e menos disposto a concessões multilaterais.

Imigração como eixo central do governo

A política migratória voltou a ocupar o centro das decisões. Embora a promessa de expulsão total de imigrantes não tenha sido totalmente cumprida, o governo mobilizou mais de 20 mil agentes para atuar além das fronteiras. O resultado foi a deportação de cerca de 605 mil pessoas e quase 2 milhões de saídas voluntárias até dezembro.

As medidas tiveram forte impacto social e geraram protestos em diversas cidades. Episódios de violência também marcaram o período, como a morte de uma cidadã americana em Minnesota, caso que ampliou a pressão sobre a Casa Branca e reacendeu críticas de organizações de direitos humanos.

Confronto com instituições e imprensa

A relação com as instituições democráticas se deteriorou logo no início do mandato. No primeiro dia de governo, Trump concedeu perdão presidencial a cerca de 1.500 envolvidos na invasão ao Capitólio em 2021. Ao longo do ano, sua administração cortou verbas de grandes universidades, abriu investigações contra centros acadêmicos e moveu processos bilionários contra veículos de imprensa.

Escritórios de advocacia que atuaram contra interesses do governo também passaram a ser alvo de ameaças e pressões, aprofundando o clima de polarização interna e desconfiança institucional.

Economia, tarifaço e impacto global

Na economia, Trump retomou com força a política protecionista. Em abril, anunciou um aumento abrupto de tarifas para 185 países, atingindo produtos industriais, agrícolas, aço e alumínio. Aliados tradicionais, como União Europeia, Canadá e Japão, reagiram com críticas e discussões sobre possíveis retaliações.

O Brasil entrou no centro da disputa. Inicialmente taxado em 10 por cento, o país passou a enfrentar tarifas de até 50 por cento em meio a divergências políticas envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro. O impasse só começou a ser resolvido após uma reunião bilateral entre Trump e o presidente Lula, em outubro, quando houve a retirada progressiva do tarifaço.

América Latina e operação na Venezuela

A América Latina ganhou destaque estratégico. Além do discurso duro sobre imigração e segurança, o governo ampliou a presença militar no Caribe. Operações contra o tráfico resultaram em mais de 100 mortes e críticas da ONU.

O ponto mais sensível foi a Venezuela. Uma ofensiva coordenada culminou na captura de Nicolás Maduro, em uma ação que provocou reações internacionais e elevou a tensão diplomática na região.

Oriente Médio, Rússia e aliados sob teste

No cenário global, Trump alternou intervenções militares e isolacionismo. O governo encerrou atividades da USAID, agência de ajuda humanitária, e retirou os EUA de protocolos de saúde, incluindo recomendações de vacinas infantis.

Ao mesmo tempo, fortaleceu a aliança com Israel, apoiando ataques a instalações nucleares iranianas. A relação com a Ucrânia se deteriorou, com críticas públicas ao presidente Volodymyr Zelensky, enquanto Trump manteve uma diplomacia ambígua com Vladimir Putin.

Outro episódio simbólico foi a pressão sobre a Dinamarca para a venda da Groenlândia, acompanhada de ameaças de sanções comerciais, o que gerou desconforto entre aliados europeus.

Controvérsias pessoais e documentos sigilosos

O ano também foi marcado por polêmicas envolvendo o próprio presidente. Apesar de sancionar uma lei que determinava a liberação de documentos sobre o caso Jeffrey Epstein, menos de 1 por cento dos arquivos vieram a público. Vazamentos de e-mails que indicariam vínculos entre Trump e o bilionário reacenderam questionamentos e críticas.

Congresso, governabilidade e indicadores econômicos

Com dificuldades para avançar projetos no Congresso, Trump governou majoritariamente por meio de ordens executivas. A relação com parlamentares foi marcada por embates e negociações pontuais, refletindo o alto grau de divisão política no país.

Na economia, os Estados Unidos mantiveram crescimento moderado. O mercado financeiro teve momentos positivos, e a inflação seguiu relativamente controlada. Especialistas, porém, alertam que os efeitos do tarifaço podem ser mais duradouros, pressionando preços e investimentos nos próximos anos.

Após um ano, o segundo mandato de Donald Trump se consolida como um período de confronto, decisões de alto impacto e forte polarização. Para seus apoiadores, o presidente recolocou os Estados Unidos no centro do jogo global. Para críticos, o custo político, social e diplomático ainda está longe de ser totalmente mensurado. O próximo ano dirá se o país seguirá nesse caminho de tensão permanente ou se haverá espaço para ajustes em meio a um mundo cada vez mais atento a cada passo da Casa Branca.

Texto: Daniela castelo Branco

Foto: Divulgação/BBC

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