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“Super Bigode”: Venezuela usa super-herói animado para enfrentar ofensiva dos EUA

Personagem inspirado em Nicolás Maduro vira arma simbólica em meio ao aumento da tensão militar com Washington no Caribe.

Há momentos em que a política ultrapassa a diplomacia, atravessa a comunicação oficial e chega a um nível quase cinematográfico. Na Venezuela, a escalada da tensão com os Estados Unidos não se expressa apenas em discursos, comunicados ou movimentações militares. Ela ganhou um rosto, um uniforme e até uma espada: o “Super Bigode”, um super-herói animado baseado no presidente Nicolás Maduro, criado para reforçar a narrativa chavista e mobilizar a população diante da ameaça americana.

Transmitido pela TV estatal desde 2021, o personagem voltou ao centro da propaganda oficial justamente quando os EUA concentram navios de guerra próximos à costa venezuelana e o presidente Donald Trump cogita ações militares para depor Maduro. Em um episódio exibido no auge da tensão, o personagem aparece com visual militar, espada em mãos, declarando que a Venezuela não tem “cultura bélica”, mesmo em um contexto que pede mobilização nacional.

Contradições nas ruas e na mensagem do governo
Apesar do tom heroico do desenho animado, a comunicação oficial do regime tem oscilado desde o agravamento da crise. De um lado, pede que a população esteja pronta para “qualquer cenário”. De outro, tenta manter uma aparência de normalidade, como se a ameaça externa fosse apenas mais um capítulo de uma longa disputa política.

Nas ruas de Caracas, a contradição fica evidente. Diferentemente de campanhas nacionais anteriores, repórteres da CNN não encontraram outdoors, faixas ou pinturas reforçando o discurso de enfrentamento, nem mesmo em bairros historicamente governistas. A impressão é de que o governo prefere deslocar sua narrativa para meios televisivos e digitais, onde controla o ritmo, a imagem e a mensagem.

Maduro adota imagem de pacificador
Analistas como o pesquisador Andrés Cañizález observam que Maduro mudou sua estratégia de comunicação. Se antes era visto com menos frequência em aparições públicas, agora tem discursado quase diariamente, muitas vezes cercado por forte aparato de segurança. Em vez de encarnar o comandante militar, o presidente tem buscado o papel de pacificador.

Em eventos públicos, chegou a cantar “Imagine”, de John Lennon, pedindo que Trump se sente à mesa para dialogar e defendendo uma saída política para o impasse. Em comícios, afirmou que os EUA deveriam buscar “a paz nas Américas”.

Essa postura, porém, não é unânime dentro da comunicação oficial.

Cabello assume o papel do “braço duro”


O contraponto é Diosdado Cabello, ministro do Interior e apresentador de um dos programas mais influentes da TV estatal venezuelana, “Con el Mazo Dando”. Seu estilo é agressivo, direto e voltado para atacar a oposição, descredibilizar os EUA e reforçar a narrativa de que o país está sob ameaça não por questões de drogas ou terrorismo, mas por interesses econômicos.

Cabello frequentemente afirma que a ação americana no Caribe seria uma tentativa de controlar os recursos naturais venezuelanos. Em seu programa, lê críticas ao governo e responde com gravações do falecido Hugo Chávez, desafiando Washington. Para analistas como o cientista político Javier Corrales, Cabello cumpre um papel típico de regimes autoritários: manter alguém no governo dedicado a elogiar o presidente enquanto destrói o inimigo.

Um inimigo com nome e sobrenome


Se Maduro evita confrontar diretamente Trump, Cabello encontrou um antagonista mais conveniente: Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA e um dos políticos norte-americanos mais críticos ao chavismo. Chamado por ele de “Cubano Louco”, Rubio aparece como personagem central da narrativa oficial, retratado como alguém que empurra Trump para o confronto militar para agradar a eleitores cubanos anticomunistas na Flórida.

Cañizález explica que Rubio é útil como “inimigo externo personalizado”: alguém que ajuda o governo a unir sua base política, ao mesmo tempo em que canaliza o sentimento antiamericano crescente em setores do país.

Militares entram em cena nas redes


Outra frente da campanha governista são os vídeos divulgados pelas Forças Armadas na internet, mostrando exercícios de tiro, barreiras antitanque e milicianos empunhando armas com trilha sonora dramática. Imagens que tentam reforçar a ideia de prontidão total, ainda que os sinais externos de mobilização nas ruas sejam discretos.

Entre o medo e a propaganda: o dilema chavista


Em meio a ataques diplomáticos, tropas americanas no Caribe e tensão política crescente, o governo venezuelano tenta equilibrar duas mensagens:
– mobilizar sem instaurar pânico
– criar um inimigo sem perder o discurso de busca pela paz
– demonstrar força militar, mas ao mesmo tempo apostar na conciliação

O resultado é uma comunicação que mistura desenho animado, discursos emocionados, ataques televisivos e apelos à unidade nacional.

E, no meio desse tabuleiro geopolítico, uma pergunta permanece no ar: se a crise se agravar, será que o “Super Bigode” desembainhará, de fato, sua espada, ou continuará sendo apenas o herói oficial de uma guerra que o governo preferiria vencer na imagem, e não no campo de batalha?

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/CNN

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