Discurso endurecido reacende tensão sobre políticas migratórias nos EUA em meio à morte de uma agente da Guarda Nacional.
A escalada na retórica migratória do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ganhou um novo capítulo após o ataque que deixou uma agente da Guarda Nacional morta em Washington. Em meio ao clima de comoção e insegurança, Trump voltou a defender medidas duras contra estrangeiros, acenando com ações que reacendem debates profundos sobre convivência, medo e pertencimento no país que historicamente se apresenta como terra de imigrantes.
A fala do presidente ocorreu um dia depois de autoridades identificarem o atirador como um cidadão afegão que chegou aos EUA em 2021. A partir daí, a Casa Branca intensificou uma ofensiva contra políticas migratórias adotadas durante o governo Joe Biden.
Suspensão generalizada e discurso de ruptura
Trump afirmou que vai trabalhar para suspender “permanentemente” a imigração de todos os “países do Terceiro Mundo”, sem especificar quais seriam afetados: uma definição usada com frequência em sua retórica para se referir a nações em desenvolvimento. Ele também prometeu cancelar “milhões de admissões ilegais aprovadas por Biden” e retirar benefícios federais de não cidadãos.
Em sua publicação na Truth Social, o presidente prometeu ainda desnaturalizar imigrantes considerados “risco à segurança” ou “incompatíveis com a civilização ocidental”, acenando para medidas que especialistas consideram extremas e de difícil sustentação jurídica. Procurados, o Departamento de Estado e a Casa Branca ainda não detalharam as propostas.
O ataque que desencadeou a reação
O episódio que motivou a escalada ocorreu na véspera do feriado de Ação de Graças, quando um atirador abriu fogo na Praça Farragut, área central de Washington. Dois membros da Guarda Nacional ficaram gravemente feridos; uma deles, Sarah Beckstrom, não resistiu.
Segundo investigadores, o suspeito foi baleado durante a troca de tiros e identificado inicialmente como Rahmanullah Lakanwal, um imigrante afegão que entrou no país em 2021 por meio da “Operação Allies Welcome”, criada para receber afegãos que ajudaram os EUA durante a guerra.
Em resposta, Trump pediu o envio de mais 500 agentes federais para reforçar a segurança da capital.
Reavaliação de green cards e revisão de asilos
A ofensiva migratória não parou no discurso. A pedido do presidente, o USCIS anunciou o reexame de todos os green cards emitidos para cidadãos de 19 países considerados “de atenção”, incluindo Afeganistão, Irã, Haiti, Líbia, Somália, Venezuela e outros listados em uma proclamação presidencial de junho.
O Departamento de Segurança Interna também suspendeu, de imediato, o processamento de qualquer solicitação de imigração feita por afegãos. Além disso, todos os casos de asilo aprovados durante o governo Biden estão sendo revisados.
Lakanwal, o suspeito do ataque, havia solicitado asilo em 2024 e recebeu o benefício em abril de 2025, já sob a gestão Trump.
Pressão política e ambiente de temor
Desde que as tropas americanas deixaram o Afeganistão em 2021, mais de 190 mil afegãos se estabeleceram nos EUA, segundo o Departamento de Estado. Muitos deles trabalharam ao lado das forças americanas, como no próprio caso de Lakanwal, que chegou a colaborar com a CIA.
Trump, porém, culpa diretamente Biden por ter trazido o suspeito ao país, afirmando que o episódio representa “a maior ameaça à segurança nacional”.
Um país dividido pela dor e pela urgência de respostas
As medidas anunciadas por Trump reacendem um tema que molda profundamente a atmosfera social norte-americana: quem merece ser acolhido, quem representa ameaça e até onde o medo pode conduzir decisões políticas. Em meio a uma tragédia que abalou Washington, o país se vê novamente diante de escolhas que ultrapassam a segurança pública e alcançam o coração de sua identidade. A forma como os EUA lidarem com esse momento dirá muito sobre que nação desejam ser e sobre o espaço que reservam a quem chega em busca de um novo começo.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













