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UE dá sinal verde ao acordo com Mercosul e reacende esperança para o agro brasileiro em um cenário global mais duro

Aval provisório do Conselho Europeu pode destravar tratado histórico após mais de 20 anos de negociações e surge como alternativa estratégica para o Brasil diante de restrições da China e pressões geopolíticas.

Depois de mais de duas décadas de negociações marcadas por impasses, resistências e avanços tímidos, o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia voltou a pulsar com força nesta sexta-feira. O Conselho Europeu, que reúne os chefes de Estado do bloco, deu sinal verde provisório para a aprovação do tratado, reacendendo expectativas no Brasil, especialmente no agronegócio, que vê no acordo não apenas uma abertura comercial, mas uma possibilidade concreta de futuro em um mundo cada vez mais fechado.

Segundo fontes que acompanham as reuniões a portas fechadas em Bruxelas, uma maioria qualificada, superior a 55% dos países da UE e representando mais de 65% da população do bloco, já manifestou apoio ao acordo. A posição precisa ser ratificada formalmente até as 13h, no horário de Brasília, por meio de um procedimento de confirmação por escrito.

Sinal político e expectativa de assinatura

O movimento ganhou força após reuniões realizadas na quarta-feira, quando a Itália, considerada o fiel da balança no bloco, se aproximou do aval ao acordo. Com isso, cresce a expectativa de que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viaje ao Paraguai, atual presidente do Mercosul, já na próxima semana, para a assinatura formal do tratado.

Para reduzir resistências internas, especialmente de agricultores europeus, a União Europeia anunciou um pacote robusto de medidas. Entre elas, 293 bilhões de euros destinados ao orçamento da política agrícola do bloco, recursos para pesquisas, criação de reservas para crises de mercado e redução de tarifas sobre fertilizantes, um gesto direto aos produtores rurais.

Salvaguardas e a última exigência italiana

Apesar do avanço, ainda há ajustes sensíveis em discussão. A Itália defende a redução do percentual que aciona o mecanismo de salvaguarda agrícola no acordo. Atualmente, o texto prevê que, se as importações de produtos agrícolas sensíveis do Mercosul crescerem em média 8% ao longo de três anos, a UE pode abrir investigação e adotar medidas de proteção, como a suspensão temporária de tarifas preferenciais.

Roma pressiona para que esse percentual caia para 5%, sobretudo em cadeias politicamente sensíveis como carne bovina, frango e açúcar. A votação sobre esse ponto também ocorre nesta sexta-feira, em Bruxelas, e o resultado definirá o desenho final do acordo.

Por que o acordo é decisivo para o Brasil

A possível consolidação do acordo ocorre em um momento especialmente delicado para o agronegócio brasileiro. Mais do que ampliar mercados, o tratado surge como uma peça-chave de diversificação comercial, num cenário em que a China, principal destino da carne bovina brasileira, começa a impor limites claros às importações.

A partir de 1º de janeiro de 2026, entra em vigor o sistema de cotas chinês para a carne bovina, com uma cota inicial de 1,106 milhão de toneladas. Dentro desse limite, a tarifa será de 12%. Fora dele, a sobretaxa chega a 55%, resultando em uma tarifa total de 67% sobre volumes excedentes. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,7 milhão de toneladas para a China, quase metade de tudo o que vendeu ao exterior.

Peso atual da União Europeia no agro brasileiro

Mesmo sem o acordo em vigor, a União Europeia já ocupa papel central no agro brasileiro. Nos 11 primeiros meses de 2025, as exportações agropecuárias do Brasil para o bloco somaram US$ 22,89 bilhões, segundo dados do Agrostat, do Ministério da Agricultura. Embora abaixo dos US$ 27,71 bilhões registrados no mesmo período de 2024, o valor representa 48,5% de todas as vendas externas do setor.

A carne bovina se destaca: os embarques para a UE chegaram a US$ 820,15 milhões entre janeiro e novembro, um salto de 83,2% na comparação anual, ficando atrás apenas de China e Estados Unidos. Na carne de frango, o bloco foi o sexto principal destino, com US$ 457,99 milhões exportados.

O café verde teve na UE seu principal mercado, com US$ 6,43 bilhões em vendas, US$ 1,22 bilhão a mais que no mesmo período de 2024. No complexo soja, o bloco foi o terceiro maior destino, com quase US$ 6 bilhões em embarques. Já na celulose, mesmo com queda de 12,9%, a UE manteve-se como o segundo maior mercado, respondendo por 21,1% do total exportado.

O que muda com o acordo em vigor

Se o tratado entrar em vigor, está prevista a redução ou eliminação de tarifas para produtos como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose, medidas que podem elevar significativamente a competitividade brasileira em um mercado exigente, mas altamente previsível.

Segundo o professor Marcos Jank, do Insper Agro, o avanço europeu vai além do comércio. Em entrevista à CNN, ele afirma que a UE busca reforçar alianças estratégicas diante do novo tabuleiro geopolítico global, marcado pela aproximação entre Rússia e China e pelo reposicionamento dos Estados Unidos na América Latina.

Para ele, a União Europeia enxerga o Mercosul não apenas como parceiro econômico, mas estratégico, inclusive em termos de segurança alimentar e estabilidade geopolítica.

Concessões europeias e proteção interna

Para viabilizar o acordo, a Comissão Europeia também anunciou a redução de tarifas sobre fertilizantes. A proposta prevê zerar a tarifa padrão de 6,5% sobre a ureia e de 5,5% sobre a amônia, dois insumos essenciais para a agricultura do bloco.

Além disso, a UE estuda flexibilizar temporariamente a taxa de carbono na fronteira, o CBAM, para determinados produtos importados, reduzindo custos no curto prazo para os agricultores europeus. Ao mesmo tempo, reforça mecanismos de proteção interna, como o chamado gatilho automático de importações.

Exigências ambientais e tensão no campo europeu

As exigências ambientais seguem como ponto de tensão. O acordo impõe compromissos rígidos de combate ao desmatamento, rastreabilidade da produção, cumprimento de normas sanitárias e respeito a metas climáticas internacionais. Essas exigências elevam custos e tendem a favorecer produtores brasileiros mais estruturados.

Na Europa, a resistência é forte, especialmente entre agricultores da França, Itália e Hungria, que temem a concorrência com produtos do Mercosul, considerados mais baratos e produzidos sob regras ambientais menos rigorosas. Protestos no campo europeu têm gerado bloqueios e pressão política constante.

O ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, Rubens Barbosa, avalia que essa resistência reflete disputas internas da própria União Europeia. Para ele, o Brasil acaba se tornando um alvo externo dessas tensões entre produtores tradicionais e emergentes do bloco.

Diversificação como estratégia de sobrevivência

Diante do endurecimento do mercado chinês e do avanço de um protecionismo seletivo no comércio global, o acordo UE–Mercosul ganha contornos ainda mais estratégicos. Embora seja um mercado mais exigente e politicamente sensível, a Europa oferece previsibilidade institucional e maior valor agregado aos produtos brasileiros.

Para Marcos Jank, o acordo é superinteressante para os dois blocos, mas exige pragmatismo. Ele ressalta que a União Europeia não será flexível e que o Brasil precisará transformar exigências em vantagem competitiva. Rubens Barbosa reforça que o desafio está em alinhar política externa e estratégia comercial para evitar choques externos.

No fim das contas, o avanço do acordo UE–Mercosul representa mais do que números ou tarifas. Ele simboliza uma encruzilhada para o Brasil: ou o país se adapta, investe em qualidade, sustentabilidade e diplomacia comercial, ou corre o risco de ficar refém de poucos mercados em um mundo cada vez mais imprevisível. É nesse ponto que o acordo deixa de ser apenas um tratado comercial e passa a ser uma decisão sobre o futuro.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto:  Leon Ephraïm/ Unsplash

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