Partido anuncia pente-fino em cargos e prepara saída oficial da base, enquanto acusa o Planalto de perseguição e vê seu presidente citado em investigações da PF.
A política brasileira volta a viver dias de tensão e ruptura. O União Brasil, uma das maiores legendas do Congresso, iniciou um processo de afastamento do governo Lula que promete redesenhar o tabuleiro em Brasília. O movimento mistura disputa por cargos, resistências internas e, sobretudo, acusações de perseguição política que expõem a fragilidade da relação entre o partido e o Planalto.
Pente-fino nos cargos federais
A partir desta sexta-feira (19), o União Brasil começou a exigir que todos os seus filiados que ocupam cargos federais coloquem os postos à disposição. A medida, que deverá ser concluída até segunda-feira (22), antecipa o anúncio oficial de que a legenda passa a integrar a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo dirigentes da sigla, o líder da bancada na Câmara, Pedro Lucas (MA), será o responsável por formalizar essa posição no Parlamento. A expectativa recai, sobretudo, sobre o ministro do Turismo, Celso Sabino, que resiste em deixar o governo. Pré-candidato ao Senado em 2026, ele avalia permanecer no cargo pelo menos até a COP30, em Belém, sua cidade natal, que considera crucial para fortalecer seu projeto político.
Acusações contra o governo e defesa de Rueda
O movimento de ruptura ganhou contornos ainda mais intensos após o nome do presidente do partido, Antonio Rueda, aparecer em apurações da Polícia Federal que investigam a suposta infiltração do PCC em setores estratégicos da economia. A PF apura se Rueda teria ligação indireta com aeronaves usadas por integrantes da facção, mas destaca que ele ainda não é formalmente investigado.
O União Brasil reagiu com veemência e divulgou uma nota na qual expressa “irrestrita solidariedade” a Rueda, classificando como “estranha coincidência” o avanço das investigações logo após a decisão de deixar os cargos no governo. Para a sigla, há uso político do aparato estatal com objetivo de enfraquecer sua independência.
Reação do governo Lula
A resposta veio rápida. A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, repudiou as acusações, chamando-as de “infundadas e levianas”. Ela destacou que o partido tem total autonomia para decidir sobre sua permanência no governo, mas afirmou que não se pode “atribuir falsamente ao Planalto a responsabilidade por investigações policiais”.
Um racha que mexe no jogo político
O afastamento do União Brasil, que ainda ocupa o Ministério do Turismo e possui bancadas expressivas na Câmara e no Senado, tem peso político significativo. Ao se declarar oposição, a legenda pode impactar votações estratégicas e acirrar a disputa entre governo e Congresso.
O embate deixa claro como a política brasileira continua sendo marcada por rupturas repentinas, acusações cruzadas e disputas de bastidores. Mais do que a saída de cargos, o que está em jogo é a construção de narrativas que podem definir quem sai fortalecido ou fragilizado diante da opinião pública. E, no meio desse embate, fica a pergunta: até que ponto o jogo político vai engolir projetos coletivos em nome de sobrevivências individuais?
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/União Brasil













