Relatório revela que a Faixa de Gaza foi o lugar mais letal do mundo para a imprensa no último ano, em meio a guerras, violência e impunidade.
Há números que atravessam estatísticas e tocam fundo na dignidade humana. Em 2025, 67 jornalistas foram assassinados no mundo enquanto exerciam sua profissão. Quase metade dessas vidas foi interrompida em um único território: a Faixa de Gaza. Segundo relatório da organização internacional Repórteres sem Fronteiras, divulgado nesta terça-feira (9), pelo menos 29 desses profissionais eram palestinos. O dado escancara não apenas a brutalidade dos conflitos, mas também o risco extremo de quem escolhe contar a verdade.
Além das mortes, o relatório mostra um cenário igualmente alarmante: ao menos 503 jornalistas estão presos no mundo, 20 seguem mantidos como reféns e 135 estão desaparecidos. Gaza aparece no topo da lista como a região mais letal para a imprensa, em razão direta das ações das Forças de Defesa de Israel durante a guerra contra o Hamas.
Gaza no epicentro da violência contra a imprensa
Depois da Faixa de Gaza, o México surge como o segundo país mais letal para jornalistas, com nove assassinatos, o que representa 13% do total. Em terceiro lugar aparece o Sudão, onde quatro profissionais da comunicação foram mortos, correspondendo a 6% das vítimas.
Do total de 67 jornalistas assassinados em 2025, três eram mulheres e 64 homens. Entre os 503 profissionais presos no mundo, 77 são mulheres e 422 homens. Todos os 20 jornalistas feitos reféns são homens. Já entre os 135 desaparecidos, nove são mulheres e 126 homens.
Prisões em massa e repressão internacional
A China lidera o ranking de países que mais prenderam jornalistas, com 121 detenções. Em seguida aparecem a Rússia, com 48, e a Birmânia, com 47 profissionais detidos. O relatório também aponta que o governo do presidente Vladimir Putin mantém atualmente o maior número de jornalistas estrangeiros presos no mundo, sendo 26, seguido por Israel, com 20.
América Latina segue sob ameaça
Na América Latina, o cenário também preocupa. Ao todo, 14 jornalistas foram mortos na região em 2025. O México responde por nove dessas mortes, consolidando-se como o país mais perigoso do continente para o exercício do jornalismo. Colômbia, Equador, Guatemala, Haiti e Honduras registraram uma morte cada.
A região ainda apresenta um número elevado de desaparecimentos. O México lidera novamente, com 28 jornalistas desaparecidos. Já nas detenções, pelo menos 26 profissionais estavam presos na América Latina até 1º de dezembro de 2025.
Principais responsáveis pelas mortes
Segundo a Repórteres sem Fronteiras, as principais causas das mortes estão diretamente ligadas a três forças de violência: ações do Exército de Israel, responsável por 43% dos assassinatos, atuação de cartéis e do crime organizado, com 24%, e operações do Exército da Rússia, com 4%.
O número de profissionais assassinados em 2025 é o maior desde 2023, quando 67 mortes também foram registradas. Em 2024, esse total havia caído para 66.
A RSF atribui esse crescimento à intensificação dos conflitos armados e à força do crime organizado, alimentados por um ambiente de ódio, perseguição e impunidade.
No fim das contas, cada dado carrega uma história interrompida, um microfone silenciado, uma câmera desligada à força. Em um mundo cada vez mais marcado por guerras, extremismos e violência, ser jornalista segue sendo um ato diário de coragem. E lembrar dessas vidas é também reafirmar, todos os dias, que informar ainda é um dos gestos mais perigosos e mais necessários da humanidade.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Getty Images













