Segunda etapa da Unha e Carne cumpre prisão preventiva e mandados no RJ e no ES e aprofunda investigação sobre vazamento de informações sigilosas.
A cena que se repete nas primeiras horas da manhã desta terça-feira carrega um peso que vai além das sirenes e dos mandados judiciais. Quando a Polícia Federal bate à porta de figuras centrais do poder, o impacto é direto na sensação de confiança da sociedade nas instituições. Foi assim com o início da segunda fase da operação Unha e Carne, que volta a lançar luz sobre os bastidores da política fluminense.
A ofensiva ocorre após a primeira etapa da investigação, que prendeu, no início do mês, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar (União). Agora, a PF amplia o cerco para aprofundar a apuração sobre o suposto vazamento de informações sigilosas envolvendo investigações contra o crime organizado.
Prisão de desembargador e novos mandados
Na ação desta terça-feira, os agentes prenderam o desembargador Macário Judice Neto, relator do caso TH Joias no Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Além da prisão preventiva, estão sendo cumpridos dez mandados de busca e apreensão, no Rio de Janeiro e no Espírito Santo.
Todos os mandados foram expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Entre eles, há ordem de busca direcionada novamente ao deputado Rodrigo Bacellar.
Suspeita de vazamento e obstrução
A operação Unha e Carne investiga o vazamento de informações sigilosas da Operação Zargun, que havia levado à prisão do deputado estadual Thiago Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, em setembro. Segundo a Polícia Federal, Bacellar teria repassado dados reservados que ajudaram a obstruir o avanço das investigações.
Ainda de acordo com a apuração, há indícios de que o parlamentar orientou o deputado investigado a retirar objetos de sua residência, numa tentativa de ocultar provas.
Defesa nega irregularidades
Em nota, a defesa de Rodrigo Bacellar afirmou que ele não atuou para obstruir investigações relacionadas a facções criminosas nem repassou informações sigilosas a alvos de operações policiais. O parlamentar teve a prisão revogada no último dia 9, após decisão da própria Alerj.
Na votação em plenário, 42 deputados se manifestaram a favor da soltura, 21 votaram contra e houve duas abstenções.
Investigação no contexto da ADPF das Favelas
A operação ocorre no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que trata da atuação do crime organizado no Rio de Janeiro e de suas conexões com agentes públicos. O foco é entender como informações sensíveis podem ter sido usadas para proteger interesses criminosos e enfraquecer o trabalho das forças de segurança.
Quando investigações alcançam autoridades dos Três Poderes, o recado que fica é duro, mas necessário. O combate ao crime organizado passa, inevitavelmente, pelo enfrentamento de suas ramificações no Estado. E cada nova fase dessas operações reacende uma pergunta que ecoa nas ruas: até onde vai a coragem das instituições para romper, de vez, a fronteira entre poder e ilegalidade?
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Gazeta do Povo













