Depoimento à Polícia Federal indica que ativos bilionários nunca chegaram à mesa de negociação e reforça que a operação não teve caráter de socorro financeiro.
A tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB ganhou contornos ainda mais sensíveis após o depoimento do ex-presidente da instituição, Paulo Henrique Costa, à Polícia Federal. Em um cenário que mistura cifras bilionárias, decisões estratégicas e investigações em curso, o relato lança luz sobre escolhas que, segundo ele, afastam qualquer narrativa de salvamento financeiro e expõem a complexidade do caso.
Em depoimento, Costa afirma que R$ 51,2 bilhões em ativos e passivos do banco controlado por Daniel Vorcaro sequer foram considerados durante as negociações. A operação, vale lembrar, nunca foi concluída, já que o Banco Master acabou entrando em liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central.
Ativos que nunca entraram na negociação
De acordo com o ex-presidente, a exclusão desse volume expressivo de ativos reforça a tese de que o BRB não pretendia assumir riscos incompatíveis com suas diretrizes internas. Além disso, outros R$ 5 bilhões oferecidos pelo Master teriam sido recusados após passarem por avaliações rigorosas de risco, análise jurídica e critérios de compliance.
Ainda segundo Paulo Henrique Costa, o banco aplicou um deságio de aproximadamente R$ 3 bilhões nas operações de compra ou troca de carteiras, adquirindo ativos abaixo do valor de face. Ele sustenta que, mesmo com essa postura conservadora, esses ativos poderiam gerar uma receita financeira estimada em R$ 6 bilhões ao longo do tempo.
Papéis rejeitados e alertas ignorados
O depoimento também cita a recusa de cerca de R$ 2 bilhões em certificados de ações do antigo Banco do Estado de Santa Catarina, o Besc. Esses papéis teriam sido oferecidos como substituição a carteiras problemáticas anteriormente adquiridas, mas foram rejeitados pelo BRB após análise. O Besc foi incorporado ao Banco do Brasil em 2008 e deixou de existir, embora cártulas físicas ainda circulem no mercado com baixíssima liquidez.
A investigação aponta que o BRB chegou a adquirir R$ 12,7 bilhões em ativos inexistentes do Master, o que desencadeou um processo de substituição dessas carteiras. No caso específico dos certificados do Besc, fontes relatam que os papéis foram prontamente recusados, diante do histórico de uso desses títulos em esquemas para inflar valores e justificar retiradas financeiras, como já revelado pela Folha de S.Paulo.
Paulo Henrique Costa foi demitido em 19 de novembro de 2025, um dia após ser afastado do cargo por decisão judicial no âmbito da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal.
No fim, o caso ultrapassa números e balanços contábeis. Ele escancara fragilidades, decisões de bastidores e a importância da governança em um sistema financeiro que lida diariamente com a confiança pública. Em meio a bilhões, o que permanece em jogo é algo ainda mais valioso: a credibilidade das instituições e a transparência diante da sociedade.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













