Levantamento do IBGE mostra avanço da renda em todas as classes sociais, porém ganhos maiores entre os mais ricos fizeram concentração aumentar em 2025.
O rendimento do brasileiro alcançou em 2025 o maior patamar desde o início da série histórica do IBGE, mas os números também revelam um retrato que mistura avanço econômico e desigualdade persistente. Enquanto milhões de famílias sentiram melhora no orçamento e no mercado de trabalho, os ganhos mais expressivos ficaram concentrados no topo da pirâmide social, reacendendo o debate sobre distribuição de renda no país.
Dados divulgados nesta sexta-feira (8) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o rendimento médio mensal real de todas as fontes chegou a R$ 3.367 em 2025, o maior valor registrado desde o início da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, iniciada em 2012.
Renda per capita também bateu recorde
O rendimento domiciliar per capita, que considera a renda dividida entre os moradores da residência, também atingiu um novo recorde nacional.
Segundo o IBGE, a média chegou a R$ 2.264 por pessoa em 2025, representando alta de 6,9% em relação ao ano anterior.
O levantamento aponta que houve melhora em todas as faixas de renda da população brasileira.
Ainda assim, o crescimento foi mais intenso entre os mais ricos, impulsionado principalmente pelo mercado de trabalho aquecido, pela alta dos juros e pelo aumento de ganhos com aplicações financeiras e aluguel de imóveis.
Mais ricos ampliaram ganhos acima da média
De acordo com o analista do IBGE Gustavo Geaquinto Fontes, o topo da pirâmide teve um crescimento superior ao restante da população.
“A população de maior renda teve crescimento acima da média populacional, apesar de a renda ter crescido para todos os estratos”, explicou.
Os 10% mais pobres do país tiveram aumento de 3,1% na renda em comparação com 2024. Apesar da melhora, esse grupo viveu com apenas R$ 268 mensais por pessoa, o equivalente a cerca de R$ 8,93 por dia.
Já os 10% mais ricos registraram crescimento de 8,7%, alcançando renda média mensal de R$ 9.117 por pessoa da família.
Quando analisado o grupo do 1% mais rico do Brasil, a renda per capita chegou a R$ 24.973 mensais em 2025.
Juros altos e aluguel ajudaram no avanço dos mais ricos
Segundo o IBGE, parte desse crescimento entre as camadas mais altas pode ser explicada pela valorização de aplicações financeiras em meio aos juros elevados e também pelo aumento da renda com aluguel de imóveis.
Além disso, trabalhadores mais qualificados também tiveram ganhos maiores em um cenário de mercado de trabalho aquecido.
“Esse período de juros mais elevados e maior rentabilidade de algumas aplicações pode contribuir para a renda desses domicílios de rendimento alto”, afirmou Gustavo Fontes.
Por outro lado, o pesquisador destacou que benefícios sociais voltados às camadas mais pobres tiveram reajustes mais modestos no período.
Desigualdade voltou a subir após mínima histórica
O índice de Gini, utilizado para medir desigualdade social, teve leve alta em 2025.
O indicador passou de 0,504 em 2024: o menor nível já registrado — para 0,511 neste ano.
Mesmo com a elevação, o índice ainda permanece abaixo do registrado antes da pandemia, quando marcou 0,543 em 2019.
Segundo o IBGE, os 10% mais ricos da população receberam, em média, 13,8 vezes mais do que os 40% mais pobres.
Além disso, os 10% de maior renda concentraram 40,3% de toda a massa de rendimentos do país: participação superior à soma obtida pelos 70% mais pobres da população.
Pobres tiveram maior avanço desde a pandemia
Apesar da alta recente na desigualdade, o IBGE destaca que, em uma comparação mais ampla desde o período pré-pandemia, as classes mais baixas tiveram crescimento proporcionalmente maior na renda.
Entre 2019 e 2025, os 10% mais pobres registraram aumento de 78,7% no rendimento médio.
Já entre os 10% mais ricos, o avanço foi de 11,9%. Na média geral da população, o crescimento foi de 18,9%.
Segundo o instituto, fatores como reajustes do salário mínimo, ampliação de programas sociais e melhora do emprego ajudaram a impulsionar a recuperação da renda entre os brasileiros mais vulneráveis.
Os números mostram um país que avança, mas ainda carrega desigualdades profundas
O novo recorde da renda média revela um Brasil economicamente mais forte do que nos últimos anos, mas também evidencia como os frutos desse crescimento ainda chegam de forma desigual à população. Enquanto parte dos brasileiros comemora melhores salários e oportunidades, milhões continuam sobrevivendo com valores insuficientes para garantir dignidade básica, lembrando que crescimento econômico e justiça social nem sempre caminham no mesmo ritmo.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Brasil













