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Análise: Bolsonaro transforma visitas à Papudinha em instrumento de articulação política

Aliados são chamados para conversas estratégicas e recebem recados mirando o controle do partido e as eleições de 2026.

Mesmo afastado da cena pública e cumprindo pena, Jair Bolsonaro segue tentando exercer influência direta sobre os rumos políticos do PL e sobre o desenho das campanhas eleitorais de 2026. As visitas autorizadas ao ex-presidente na Papudinha, em Brasília, têm se consolidado como um espaço de articulação, onde recados são dados e estratégias começam a ser alinhadas longe dos holofotes.

É do próprio Bolsonaro que partem as primeiras convocações para esses encontros. Nesta quinta-feira (29), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, autorizou as visitas de três parlamentares aliados. O líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto (PL-PB), e o deputado Hélio Lopes (PL-RJ) estão autorizados a ir à Papudinha no dia 7 de fevereiro. Já o senador Wilder Morais (PL-GO) deverá se encontrar com o ex-presidente no sábado seguinte, dia 14.

Goiás no centro das conversas

Nos bastidores do PL, cresce a expectativa de que Bolsonaro use o encontro com Wilder Morais para tratar diretamente do cenário eleitoral em Goiás. A especulação é de que o ex-presidente possa sugerir que o senador desista da disputa ao governo estadual. A pré-candidatura de Wilder é vista como um projeto mais ligado ao presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, do que ao próprio Bolsonaro.

Nesse cenário, a prioridade do ex-presidente em Goiás seria fortalecer a candidatura do deputado federal Gustavo Gayer para o Senado, considerado um nome mais alinhado ao seu campo político.

Orientações para a oposição no Congresso

Já o deputado Cabo Gilberto chega ao encontro com outra expectativa. Recém-empossado como líder da oposição na Câmara, ele afirma que pretende ouvir diretamente de Bolsonaro quais devem ser as prioridades no ano legislativo e as diretrizes políticas para o próximo ciclo eleitoral.

“Quero falar da minha liderança da oposição ao presidente e saber as determinações dele como nossa principal liderança para que possamos executar esse trabalho em 2026. E como também vencer as eleições para tirarmos o PT do comando do Brasil”, afirmou o parlamentar à CNN.

Disputa sensível no Rio de Janeiro

O deputado Hélio Lopes, por sua vez, é apontado internamente como possível candidato ao Senado pelo PL no Rio de Janeiro. A eventual candidatura, no entanto, gera cautela dentro do partido. Há avaliações de que Hélio poderia dividir votos com a senadora Benedita da Silva, nome do PT, o que tornaria a disputa mais imprevisível no estado.

Esses ajustes finos, estado por estado, reforçam a leitura de que Bolsonaro pretende seguir como o principal fiador das decisões estratégicas do partido, mesmo em um contexto jurídico adverso.

Limites impostos pelo STF

A defesa do ex-presidente também solicitou autorização para a visita de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. O pedido, porém, foi negado pelo ministro Alexandre de Moraes, já que Valdemar é investigado na ação que apura a trama golpista.

O veto evidencia os limites institucionais impostos às articulações, mas não impede que Bolsonaro utilize os encontros autorizados como ferramenta de comando político.

Na prática, a Papudinha passa a funcionar como um novo centro de decisões informais. Entre visitas controladas, conversas reservadas e sinais enviados aos aliados, Bolsonaro busca manter viva sua liderança e influência, mostrando que, mesmo longe dos palanques, ainda pretende ditar o ritmo da direita brasileira rumo a 2026.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Jota

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