Saída da corrida pelo Planalto foi definida às pressas nas horas finais e teve influência familiar, cenário no Paraná e articulações políticas.
A política tem dessas viradas que ninguém consegue prever. E foi exatamente assim que a desistência de Ratinho Júnior da disputa pela Presidência da República em 2026 caiu como uma bomba entre aliados, amigos e até integrantes do próprio governo. O anúncio, feito na segunda-feira, 23, revelou não apenas uma mudança de planos, mas também os bastidores silenciosos de uma decisão amadurecida longe dos holofotes.
Até poucos dias antes, o cenário era outro. A pré-candidatura estava praticamente consolidada dentro do PSD, com articulações em andamento e até uma cerimônia marcada em Brasília para oficializar o nome do governador. Nada indicava que o caminho seria interrompido de forma tão abrupta.
Decisão repentina e sem aviso prévio
Relatos de pessoas próximas apontam que a desistência pegou de surpresa até mesmo aliados de primeira linha. Interlocutores que estiveram com Ratinho Jr. recentemente afirmam que não havia qualquer sinal de recuo, o que reforça o impacto da decisão no meio político.
A mudança começou a ganhar forma apenas na manhã de segunda-feira (23), quando comentários discretos surgiram nos corredores do governo. Ainda assim, muitos não acreditaram. Horas depois, a confirmação veio de forma oficial, consolidando um movimento que foi conduzido com discrição até os últimos momentos.
Nem mesmo o presidente do PSD, Gilberto Kassab, teria sido previamente informado com clareza. Segundo interlocutores, ele também foi surpreendido, já que trabalhava com a candidatura do governador como certa.
Pressões pessoais e cálculo político
Nos bastidores, três fatores principais ajudam a explicar a decisão: pressão familiar, avaliação de riscos políticos no Paraná e a leitura de baixa viabilidade eleitoral no cenário nacional.
A influência da família aparece como elemento central. De acordo com relatos, conversas com a esposa, os filhos e o pai, o apresentador Ratinho, pesaram significativamente. O receio de uma campanha marcada por ataques intensos, especialmente vindos do campo bolsonarista, também entrou na conta.
Além disso, questões locais tiveram peso decisivo. O avanço de Sergio Moro no Paraná, com apoio de Flávio Bolsonaro, acendeu um alerta no grupo político de Ratinho Jr., que passou a enxergar riscos maiores em deixar o governo antes do fim do mandato.
Cenário nacional e disputa interna no partido
Dentro do PSD, a saída de Ratinho Jr. reorganiza o tabuleiro. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, passa a ser o favorito na disputa interna pela candidatura à Presidência.
O processo ainda conta com o nome de Eduardo Leite, mas, nos bastidores, a avaliação predominante é de que Caiado larga em vantagem. A definição oficial do partido deve ocorrer ainda em março.
Apesar de deixar a disputa presidencial, Ratinho Jr. já sinalizou que apoiará o nome escolhido pelo PSD, afastando especulações sobre possíveis alianças fora da legenda.
Entre estratégia e surpresa, uma decisão que redesenha o jogo
A desistência, sacramentada nas 24 horas que antecederam o anúncio, mostra como a política pode mudar de rumo em questão de horas. O que parecia certo virou dúvida, e o que estava planejado foi substituído por cautela.
No fim, a decisão de Ratinho Jr. revela que, por trás de cada candidatura, existem não apenas estratégias eleitorais, mas também escolhas pessoais, pressões e limites que nem sempre aparecem publicamente. E, enquanto o cenário para 2026 começa a se reorganizar, fica a sensação de que, na política, o inesperado ainda é uma das únicas certezas.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil













