Estratégia da defesa busca enfraquecer tese da Polícia Federal e abrir caminho para colaboração premiada.
O cerco se fecha, mas a estratégia muda. Preso e no centro de um dos escândalos financeiros mais delicados dos últimos tempos, Daniel Vorcaro tenta reescrever seu papel na investigação, não mais como líder de um suposto esquema criminoso, mas como peça disposta a colaborar com a Justiça. O movimento, carregado de implicações jurídicas e políticas, pode alterar os rumos da apuração.
O ex-banqueiro articula, por meio da defesa, a retirada da acusação de organização criminosa e, principalmente, do apontamento de que seria o chefe do esquema investigado pela Polícia Federal. A mudança não é apenas técnica: ela pode ser determinante para viabilizar um acordo de delação premiada mais vantajoso.
Estratégia mira reconfigurar papel no esquema
A lógica por trás da manobra é clara. Em acordos de colaboração, é comum que o delator apresente informações sobre superiores hierárquicos: o chamado “andar de cima”. Ao tentar se desvincular da posição de liderança, Vorcaro abre espaço para fornecer informações em um nível horizontal, indicando outros envolvidos nas fraudes bilionárias atribuídas ao extinto banco Master e suas conexões políticas.
Na prática, isso pode ampliar o alcance das investigações, ao mesmo tempo em que reduz o peso das acusações diretamente sobre ele.
O que Vorcaro pode entregar
Dentro das negociações, a expectativa é que Vorcaro apresente um conjunto robusto de provas. Entre elas, documentos, confirmações de dados extraídos de seu aparelho celular, registros de encontros e detalhes sobre sua rede de contatos.
Mesmo com o avanço das tratativas, o acordo ainda depende de um passo crucial: a homologação por parte do André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Sem esse aval, a colaboração não produz efeitos legais.
Movimentações intensas nos bastidores
Desde sexta-feira, 20 de março de 2026, Vorcaro já recebeu ao menos nove visitas de seus advogados na Superintendência da Polícia Federal do Distrito Federal. Os encontros, com duração média de uma hora, indicam um ritmo acelerado nas negociações — e cada saída dos defensores com anotações reforça a ideia de que o acordo está sendo minuciosamente construído.
Paralelamente, nesta quarta-feira, 25 de março de 2026, um novo elemento entrou em cena. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, decidiu trocar sua defesa, em um movimento interpretado como preparação para também aderir a um acordo de delação premiada.
Possível efeito dominó
A intenção é que Zettel seja incluído na mesma colaboração que vem sendo estruturada por Vorcaro, o que pode fortalecer ainda mais o conteúdo das revelações e ampliar o alcance das investigações.
Ambos estão presos no âmbito da operação Compliance Zero. Enquanto Zettel cumpre prisão em um presídio no interior de São Paulo, Vorcaro permanece custodiado na sede da Polícia Federal, em Brasília.
No pano de fundo, o caso expõe um jogo delicado entre acusações, estratégias de defesa e possíveis revelações que podem atingir novas figuras. Em momentos como esse, a verdade deixa de ser apenas uma busca abstrata e passa a ser também uma moeda de negociação, capaz de redesenhar responsabilidades e mudar destinos.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reprodução













