Ex-presidente passou por PF, Papuda e internações médicas antes de obter prisão domiciliar nesta sexta-feira (27), autorizada por Alexandre de Moraes.
Foram 125 dias que misturaram poder, queda, isolamento e fragilidade humana. Entre celas, decisões judiciais e internações hospitalares, o período em que o ex-presidente Jair Bolsonaro esteve preso revela não apenas um capítulo jurídico, mas também uma travessia marcada por tensão política e desafios pessoais.
Nesta sexta-feira (27), Bolsonaro deixou o hospital após duas semanas internado com broncopneumonia e passou a cumprir prisão domiciliar temporária, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Com tornozeleira eletrônica instalada às 8h45, ele deixou a unidade médica às 9h45, iniciando um período inicial de 90 dias em casa.
Início da prisão e passagem pela Polícia Federal
A prisão teve início em 22 de novembro de 2025, quando Bolsonaro foi levado à Superintendência da Polícia Federal do Brasil, em Brasília, após a decretação de prisão preventiva. Três dias depois, em 25 de novembro, começou oficialmente o cumprimento da pena de 27 anos e três meses, relacionada à condenação por tentativa de golpe.
Durante 54 dias, permaneceu em uma sala de Estado-Maior de cerca de 12 metros quadrados, sob regras rígidas de visitação. Familiares só podiam entrar em dias e horários limitados, enquanto a defesa apresentava sucessivos pedidos de prisão domiciliar, alegando problemas de saúde.
Foi nesse período que Bolsonaro passou por procedimentos médicos importantes. Em dezembro, foi submetido a uma cirurgia para tratar uma hérnia inguinal, incluindo uma laparotomia exploradora para reconstrução da parede abdominal. Dias depois, precisou voltar ao centro cirúrgico para tratar crises persistentes de soluço, com bloqueio do nervo frênico.
Após receber alta em janeiro, retornou à unidade da Polícia Federal.
Transferência para a Papuda e rotina diferenciada
Em 15 de janeiro de 2026, Moraes autorizou a transferência para o Complexo Penitenciário da Papuda, onde Bolsonaro ficou na chamada “Papudinha”, ala destinada a presos com custódia diferenciada.
Diferente da estrutura anterior, a cela tinha cerca de 64,8 metros quadrados, com banheiro, cama de casal, geladeira, televisão e área externa para banho de sol com privacidade. As visitas também foram ampliadas, com horários mais flexíveis e possibilidade de encontros simultâneos.
Durante esse período, o STF autorizou que Bolsonaro participasse de programas de leitura para remição de pena. Entre os autores disponíveis estavam nomes como Jorge Amado, Machado de Assis, Clarice Lispector, Ariano Suassuna, William Shakespeare, Gabriel García Márquez e George Orwell.
Mesmo com novos pedidos da defesa, a prisão domiciliar foi negada naquele momento. Laudos médicos indicavam a existência de comorbidades, mas apontavam que o quadro estava controlado e que o local oferecia estrutura adequada.
Crise de saúde e internação
Após 57 dias na Papuda, Bolsonaro voltou a enfrentar problemas de saúde e precisou ser internado com broncopneumonia bilateral. O quadro incluiu febre alta, queda na saturação de oxigênio e outros sintomas que exigiram cuidados intensivos.
Ele chegou a permanecer mais de uma semana na UTI, sendo posteriormente transferido para cuidados semi-intensivos até apresentar melhora clínica.
Decisão pela prisão domiciliar
No dia 24 de março de 2026, Alexandre de Moraes autorizou a prisão domiciliar por 90 dias, considerando a necessidade de recuperação do ex-presidente. O prazo passou a contar a partir desta sexta-feira (27), com a alta hospitalar.
A decisão impôs uma série de regras, como o uso de tornozeleira eletrônica, restrição total de deslocamento, proibição de uso de celular e redes sociais, além de controle rigoroso de visitas. Por outro lado, foram autorizadas visitas familiares em dias específicos, acompanhamento médico contínuo e sessões de fisioterapia.
Entre poder, queda e reconstrução
Os 125 dias de prisão de Bolsonaro condensam um dos momentos mais intensos e controversos da política recente brasileira. Entre decisões judiciais, disputas de narrativa e episódios de saúde, o período expõe a complexidade de uma trajetória que segue dividindo opiniões.
No fim, mais do que um registro cronológico, essa passagem deixa marcas que ultrapassam o campo político. Ela revela, acima de tudo, como o poder pode ser transitório e como, em determinados momentos, até as figuras mais influentes se veem diante da própria vulnerabilidade.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters- Adriano Machado













