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Derrota histórica de Jorge Messias no Senado expõe crise entre Lula e Alcolumbre e abala o Planalto; entenda oito pontos cruciais

Após seis meses de articulação intensa, o governo Lula viu ruir no plenário do Senado a indicação de Jorge Messias ao STF, em uma rejeição inédita desde 1894 e que escancarou o desgaste político entre o Planalto e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre.

A derrota de Jorge Messias no Senado não aconteceu de forma repentina. Ela foi construída ao longo de seis meses de tensão, articulações silenciosas, desgastes políticos e uma disputa de poder que colocou frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Na quarta-feira (29), o advogado-geral da União foi rejeitado por 42 votos contrários e 34 favoráveis na tentativa de assumir uma vaga no Supremo Tribunal Federal. O episódio entrou para a história como a primeira rejeição de um indicado ao STF desde 1894 e se transformou em uma das maiores derrotas políticas do terceiro mandato de Lula.

Mais do que a queda de um nome, o que se viu foi o retrato de uma relação estremecida entre Executivo e Congresso.

1. Lula queria Messias, Alcolumbre defendia Pacheco

A vaga no Supremo foi aberta após a saída de Luís Roberto Barroso, em outubro do ano passado. Desde então, começou uma intensa disputa nos bastidores sobre quem ocuparia a cadeira.

Entre os nomes mais cotados estavam Jorge Messias, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) e Bruno Dantas, então ministro do Tribunal de Contas da União.

Lula tinha Messias como favorito absoluto. Já Alcolumbre defendia fortemente Rodrigo Pacheco, nome que também tinha boa aceitação dentro do STF.

O senador chegou a se reunir pessoalmente com Lula para tentar convencer o presidente a escolher Pacheco. O impasse aumentou ainda mais a tensão já existente entre os dois.

2. A escolha de Messias e o desgaste inicial

Em 20 de novembro, Lula anunciou oficialmente Jorge Messias como seu escolhido para o Supremo.

O AGU se tornou a terceira indicação do petista neste mandato, após Cristiano Zanin e Flávio Dino.

O problema começou justamente no gesto político que não aconteceu: o Planalto não avisou previamente Davi Alcolumbre sobre a escolha.

Embora não exista obrigação formal, esse tipo de comunicação é tratado como sinal de respeito e cortesia entre os Poderes.

A ausência desse gesto foi interpretada como desconsideração e ampliou o desgaste com o presidente do Senado.

3. Sabatina marcada e depois cancelada

Inicialmente, a sabatina de Messias na Comissão de Constituição e Justiça havia sido articulada para acontecer em 10 de dezembro.

A data foi acordada entre Alcolumbre e o presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA).

Mas o Planalto decidiu adiar o envio oficial da mensagem presidencial ao Senado por receio de uma derrota precoce.

A estratégia era ganhar tempo para ampliar apoios e reduzir resistências.

Sem a formalização da indicação, Alcolumbre cancelou a sessão e passou a criticar publicamente a demora do governo.

4. O “beija-mão” de Messias no Senado

Nos meses seguintes, Jorge Messias intensificou uma verdadeira peregrinação pelos gabinetes do Senado.

O AGU participou de reuniões com parlamentares de diferentes partidos, inclusive da oposição, em busca de apoio para sua futura sabatina.

O movimento foi visto como uma tentativa de reconstruir pontes e diminuir a rejeição ao seu nome dentro da Casa.

Mesmo assim, a resistência permanecia forte.

5. Troca de farpas e crise pública

No fim de 2025, Alcolumbre endureceu ainda mais o discurso e passou a rebater críticas sobre sua postura em relação à indicação.

Ele afirmou que estava apenas defendendo as prerrogativas institucionais do Senado e reforçou que o Congresso não abriria mão de sua autoridade.

Durante a abertura do ano legislativo, o senador deixou claro que o Legislativo não aceitaria imposições do Executivo.

Pouco depois, em evento ao lado de Lula, falou sobre tentativas de criar disputas entre instituições, em uma fala interpretada como recado político direto.

Houve expectativa de uma nova reunião entre Lula e Alcolumbre para tentar distensionar o ambiente, mas o encontro nunca aconteceu.

6. O envio oficial e a reta final

Somente em 1º de abril o Planalto enviou oficialmente ao Senado a mensagem com a indicação de Jorge Messias.

A avaliação interna era de que a resistência havia diminuído e que o momento seria mais favorável.

Logo depois, a CCJ marcou a sabatina para o dia 29 de abril, com votação em plenário prevista para a mesma data.

O governo voltou a demonstrar confiança.

7. Últimas articulações e expectativa de vitória

Com a data definida, Messias retomou as conversas com senadores.

O relator da indicação, senador Weverton Rocha (PDT-MA), apresentou parecer favorável.

Dias antes da sabatina, Alcolumbre chegou a se reunir com o AGU e garantiu que o processo ocorreria com equilíbrio e tranquilidade.

Nos bastidores, o Planalto trabalhava com a expectativa de pelo menos 45 votos favoráveis.

A oposição, porém, acreditava que ele não ultrapassaria 35 votos.

8. A derrota histórica no plenário

Messias foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça por 16 votos a 11, após uma sabatina de oito horas marcada por questionamentos sobre aborto, religião, interferência do STF, atos de 8 de janeiro, Banco Master e descontos indevidos no INSS.

Mas o cenário mudou completamente no plenário.

Na votação secreta, ele recebeu apenas 34 votos favoráveis e 42 contrários, ficando abaixo dos 41 necessários para assumir a vaga.

A derrota foi imediata, simbólica e devastadora.

Depois de mais de um século sem rejeições ao Supremo, o Senado deixou claro que nenhuma articulação é garantida quando a política se rompe nos bastidores. Brasília vive de gestos silenciosos, alianças discretas e confiança construída longe dos holofotes. Quando isso falha, até o improvável acontece. E foi exatamente isso que aconteceu com Jorge Messias.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Senado Federal

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