Líder do governo no Congresso afirma que o Planalto não fará retaliações após a rejeição histórica de Jorge Messias ao STF e diz que relação com o Senado permanece institucional, apesar do forte desgaste político.
Depois de uma das derrotas mais simbólicas do governo Lula neste mandato, o clima em Brasília amanheceu carregado de tensão, especulações e desconfiança. A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não abalou apenas o Palácio do Planalto, mas também abriu uma disputa silenciosa sobre responsabilizações e possíveis retaliações dentro da própria base aliada.
Em meio a esse cenário, coube ao líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues, tentar conter o incêndio político. Nesta quinta-feira (30), ele negou que o governo Lula pretenda promover uma “caça às bruxas” após o Senado barrar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF. A declaração ocorre em meio aos bastidores de possível exoneração de aliados ligados ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
A fala de Randolfe busca reduzir a temperatura de um embate que ganhou proporções históricas após o Senado rejeitar, por 42 votos a 34, o nome de Messias para a Suprema Corte; algo que não acontecia desde 1894.
“Não vamos perder tempo com isso”
Randolfe afirmou que o governo não pretende transformar a derrota em uma operação de perseguição política dentro do Congresso.
“Nós não vamos transformar isso em uma caça às bruxas”, declarou o senador, acrescentando que o Planalto não pretende gastar energia tentando descobrir como cada senador votou na sessão secreta que derrubou a indicação.
Segundo ele, apesar do revés expressivo, a relação institucional entre Executivo e Legislativo permanece a mesma.
“Continua a mesma relação. Nós já tivemos vitórias e derrotas (…) e a relação institucional não mudou”, disse.
A declaração tenta afastar rumores de retaliações, especialmente diante das informações de que o governo avalia demissões de ocupantes de cargos ligados ao grupo político de Alcolumbre.
Nos bastidores, auxiliares de Lula classificaram a derrota como uma traição articulada.
Governo nega erro de Lula na indicação
Além de rebater a tese de retaliação, Randolfe também evitou atribuir a derrota a um erro de cálculo político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nos bastidores, houve relatos de que Lula teria sido alertado sobre o risco real de derrota e até aconselhado a adiar a votação no plenário. Mesmo assim, o presidente manteve a sabatina.
Questionado sobre isso, Randolfe saiu em defesa da decisão presidencial.
“Lula é um presidente que não renuncia à atribuição que tem. A atribuição da escolha de ministro do STF é do presidente e ele fez uso dessa atribuição”, afirmou.
O senador também disse que o governo sabia que o placar seria apertado, embora a expectativa pública continuasse sendo de aprovação.
A derrota, segundo ele, também foi influenciada pelo ambiente pré-eleitoral que já movimenta Brasília.
Sem novo nome definido para o STF
Randolfe afirmou ainda que, neste momento, não existe um novo nome definido para a vaga no Supremo.
A decisão caberá exclusivamente a Lula, que deverá avaliar os próximos passos após a rejeição inédita de seu indicado.
“O presidente da República vai avaliar, vai analisar e deve utilizar da prerrogativa que tem de fazer indicação ao Supremo Tribunal Federal”, declarou.
A vaga segue aberta e o governo agora precisará reconstruir pontes com o Senado para evitar uma nova derrota.
A relação com Alcolumbre, no entanto, permanece como um dos pontos mais delicados dessa equação.
O presidente do Senado defendia o nome de Rodrigo Pacheco para a Corte e nunca escondeu o desconforto com a escolha de Messias.
Uma derrota que vai além de um voto
Na política, nem sempre a derrota mais dura é a que aparece no painel eletrônico. Às vezes, ela está no silêncio dos aliados, nos abraços desconfortáveis e nas portas que deixam de se abrir.
A rejeição de Jorge Messias expôs mais do que uma votação perdida: revelou rachaduras profundas dentro da base governista e a fragilidade de uma articulação que parecia sólida.
Agora, mais do que encontrar um novo nome para o Supremo, Lula precisará reconstruir confiança. Porque em Brasília, votos se contam no plenário, mas as derrotas quase sempre começam muito antes e bem longe dos microfones.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Senado












