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PF prende presidente de associação envolvido no roubo bilionário do INSS

Foragido desde novembro do ano passado, Carlos Roberto Ferreira Lopes se entregou à Polícia Federal em Brasília e foi encaminhado ao sistema prisional. Prisão pode abrir caminho para uma possível delação premiada.

Enquanto milhares de aposentados e pensionistas ainda tentam entender por que tiveram parte de seus benefícios descontada sem autorização, um dos nomes apontados como centrais na investigação das fraudes bilionárias do INSS voltou ao alcance da Justiça. O presidente da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), Carlos Roberto Ferreira Lopes, se entregou na quarta-feira (12) à Polícia Federal, em Brasília.

Foragido desde novembro de 2025, Lopes tinha contra si um mandado de prisão expedido pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Após se apresentar espontaneamente na sede da Superintendência da PF, ele foi preso e encaminhado ao sistema prisional.

Prisão pode abrir caminho para delação

A prisão de Carlos Lopes pode representar um novo capítulo nas investigações que apuram um esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. Segundo fontes que acompanham o caso, a detenção também pode abrir espaço para uma negociação de delação premiada.

O presidente da Conafer já havia sido indiciado pela Polícia Federal no primeiro inquérito sobre as fraudes, ao lado de outras 47 pessoas. A entidade é apontada como uma das peças centrais do esquema investigado, que envolve valores bilionários retirados de benefícios de segurados.

A situação de Lopes ganhou ainda mais repercussão no ano passado, quando ele foi preso em flagrante durante depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigava as fraudes no INSS. Na ocasião, o senador Carlos Viana (PSD-MG), então responsável pela condução da oitiva, afirmou que o depoente havia mentido e descumprido o compromisso de falar a verdade. Lopes acabou liberado após o pagamento de fiança de R$ 5 mil.

Descontos cresceram de forma explosiva

A Conafer foi a entidade que mais ampliou, em números absolutos, os descontos realizados sobre aposentadorias e pensões do INSS entre 2019 e 2024. Os valores saltaram de aproximadamente R$ 400 mil para R$ 277 milhões no período.

O relatório da Polícia Federal que deu origem à operação aponta que aposentados e pensionistas teriam sofrido descontos superiores aos valores que haviam autorizado. Em alguns casos, as cobranças chegaram a ser entre 40% e 180% maiores que o valor registrado como autorizado.

Em seis situações analisadas pelos investigadores, por exemplo, os beneficiários teriam permitido um desconto mensal de R$ 28,24. O valor efetivamente retirado dos benefícios, porém, chegou a R$ 79,06, uma diferença de 180%.

Relações políticas entram no radar

A Conafer também aparece nas investigações por seus vínculos com integrantes do chamado Centrão. Um dos principais elos apontados durante o governo Lula 3 foi André Fidelis, que ocupou o cargo de diretor de benefícios do INSS até julho de 2024.

Fidelis foi exonerado após reportagens revelarem possíveis esquemas envolvendo descontos sobre os benefícios de aposentados. Era o diretor quem assinava parcerias com associações e sindicatos para que essas entidades oferecessem serviços aos segurados, permitindo a realização dos descontos diretamente nas aposentadorias e pensões.

Com a ampliação dessas parcerias, a Conafer registrou um crescimento expressivo tanto no número de filiados quanto no faturamento. A situação chegou a levar o próprio INSS a firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a entidade para que os descontos fossem revalidados.

O dinheiro que sai do benefício pesa muito mais para quem recebe

Por trás dos números milionários e dos nomes que aparecem nos inquéritos, existe uma realidade que não pode ser esquecida: o dinheiro descontado sai diretamente do bolso de pessoas que, muitas vezes, dependem daquele benefício para comprar comida, pagar medicamentos e manter a própria casa.

A prisão de Carlos Lopes coloca novamente no centro das atenções a necessidade de esclarecer como o esquema funcionava, quem se beneficiou dele e, principalmente, quantos aposentados e pensionistas foram prejudicados. Mais do que descobrir os responsáveis, o desafio agora é garantir que cada centavo retirado indevidamente seja identificado e, quando possível, devolvido a quem nunca deveria ter perdido o direito sobre ele.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Agência Brasil

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