Vídeo em que Estela Aranha declara voto no presidente em 2022 voltou a circular nas redes sociais após o cancelamento do debate da Globo.
A poucos dias do primeiro turno das eleições, uma decisão envolvendo o debate presidencial da TV Globo ganhou novos contornos e passou a provocar forte repercussão nas redes sociais. A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou que a emissora não exibisse o espaço vazio destinado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o debate cancelado, já declarou publicamente ter votado no petista nas eleições de 2022.
O vídeo em que a magistrada afirma seu voto voltou a circular na internet após a Globo anunciar o cancelamento do debate que seria realizado na quinta-feira (1º). A situação colocou sob os holofotes não apenas a decisão judicial que alterou as regras previamente acordadas para o programa, mas também o histórico profissional de Estela e sua passagem pelo governo Lula.
Declaração de voto ocorreu durante a eleição de 2022
Na gravação, que voltou a ganhar ampla circulação nas redes sociais, Estela Aranha afirma que votou em Lula no segundo turno da eleição de 2022, quando o petista disputava a Presidência contra o então presidente Jair Bolsonaro (PL).
“Voto em Lula no segundo turno. Eu voto 13 porque, como advogados, nós não temos outra opção que não seja o Lula para a gente estancar o aumento do autoritarismo, para a gente defender o Estado democrático de Direito e a democracia no país”, declarou a então advogada.
Na mesma gravação, Estela afirma ainda que os advogados deveriam votar no petista, inclusive para “salvar o próprio sistema de Justiça”.
O registro foi feito antes de sua chegada ao TSE e passou a ser resgatado nas redes sociais justamente no momento em que uma decisão da ministra envolvendo Lula provocou o cancelamento do debate presidencial da Globo.
Decisão sobre púlpito vazio levou ao cancelamento
Segundo a TV Globo, a emissora recebeu duas notificações relacionadas ao debate que interferiam nas regras previamente estabelecidas entre os candidatos e, diante disso, decidiu cancelar o programa.
Uma das decisões partiu de Estela Aranha, que atendeu a um pedido apresentado pela coligação de Lula e determinou que não fossem feitas perguntas ao candidato ausente nem fosse exibido o púlpito vazio reservado a ele.
As regras do debate haviam sido previamente acordadas e assinadas pelos partidos. De acordo com a emissora, o documento estabelecia que, em caso de ausência de um candidato, o espaço destinado a ele permaneceria vazio no cenário, acompanhado de uma placa de identificação.
A decisão da ministra tornou inválido esse trecho das regras e determinou que a emissora não exibisse a cadeira vazia destinada ao presidente.
Na decisão, concedida em caráter de urgência, Estela argumentou que a imagem do espaço vazio poderia produzir efeitos que ultrapassariam a simples informação ao eleitor sobre a ausência do candidato. O entendimento também apontou a existência de “perigo de dano” diante da proximidade do primeiro turno.
Passagem pelo governo Lula
A relação profissional de Estela Aranha com o governo federal também passou a ser destacada após a repercussão da decisão.
A ministra foi nomeada para o TSE em 1º de agosto de 2025, para um mandato de dois anos. Antes disso, durante o governo Lula, ocupou o cargo de secretária de Direitos Digitais do Ministério da Justiça e Segurança Pública, na gestão do então ministro Flávio Dino.
Na função, ganhou destaque pela atuação relacionada à regulamentação e à proteção de direitos no ambiente digital, especialmente em discussões envolvendo grandes empresas de tecnologia.
Posteriormente, Estela foi nomeada assessora especial da Presidência da República, atuando na assessoria internacional do órgão, então comandada pelo ex-chanceler Celso Amorim.
A magistrada também integrou o gabinete da Presidência do próprio TSE em 2025, durante a gestão da ministra Cármen Lúcia.
Trajetória na área jurídica
Formada em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), em 1999, Estela Aranha possui mestrado em Direito Constitucional pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).
A ministra também é conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ) e já presidiu a Comissão de Proteção de Dados e Privacidade da entidade. Também coordenou o Núcleo de Proteção de Dados e Privacidade do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM).
Ao longo da carreira, participou do Conselho Consultivo de Alto Nível da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Inteligência Artificial e atuou como professora convidada em instituições como ESA/RJ, EMERJ, FGV, Mackenzie, EPD e IDP.
Sua trajetória profissional é concentrada principalmente nas áreas de direito digital, proteção de dados e inteligência artificial.
Decisão acontece em momento decisivo da eleição
A repercussão do caso ocorre em uma das etapas mais sensíveis da disputa presidencial, quando candidatos, partidos e eleitores acompanham cada movimento a poucos dias da votação.
De um lado, está uma decisão judicial que, segundo a ministra, buscou impedir que uma imagem pudesse produzir efeitos eleitorais além da informação sobre a ausência de um candidato. De outro, estão as regras previamente estabelecidas para o debate e a declaração pública de voto feita pela magistrada anos antes de assumir uma cadeira no TSE.
A combinação desses elementos ampliou a discussão sobre os limites das decisões da Justiça Eleitoral, a autonomia das emissoras e a necessidade de transparência em um processo eleitoral marcado pela intensa circulação de informações nas redes sociais.
Em um cenário no qual cada imagem, cada decisão e cada palavra podem ganhar enorme repercussão, o episódio mostra como acontecimentos aparentemente restritos a um debate televisivo podem ultrapassar as telas e alcançar diretamente a confiança do eleitor. Às vésperas da votação, o caso acrescenta mais um capítulo à já intensa disputa eleitoral e reforça a importância de que fatos, decisões e históricos sejam conhecidos e analisados pelo público antes de qualquer conclusão.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Secom – TSE













