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Por que o Brasil não cresce como outros países? Economistas explicam os obstáculos históricos e estruturais

Quatro décadas de crises fiscais, atraso educacional e baixa produtividade travaram o potencial do país.

O Brasil registra crescimento econômico baixo e irregular desde a década de 1980, contrastando com países emergentes que alcançaram avanços sólidos. Enquanto China e Índia cresceram, respectivamente, 8,2% e 6,3% ao ano desde 2000, o país manteve média de 2,4% no mesmo período: pouco acima da média da América Latina, mas distante de um crescimento sustentável.

Crises fiscais e endividamento histórico

Especialistas apontam que crises fiscais recorrentes e gastos públicos excessivos prejudicaram o desenvolvimento econômico. “O problema do Brasil é que as crises fiscais são recorrentes. Como você reduz isso?”, questiona Sílvia Mattos, economista da FGV Ibre.

Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda, explica que reformas estruturais são essenciais: “O governo não pode deixar de gastar certas questões previstas. Enfrentar isso exige reformas administrativas, tributárias, da previdência e mudanças constitucionais para reduzir gastos obrigatórios.”

O efeito dessas políticas gera baixa poupança interna, que é fonte crucial de investimento produtivo. A consequência: juros altos, baixo investimento e crescimento mais lento do que em países semelhantes.

A herança do milagre econômico e o início da estagnação

O período de industrialização entre 1930 e 1980 impulsionou o país, mas também gerou uma “herança maldita”: endividamento elevado e inflação persistente. “Entramos nos anos 1980 com endividamento externo grande e pressão inflacionária alta. Foi uma década perdida”, afirma Márcio Holland, da FGV.

Especialistas destacam que o Brasil não investiu na atualização tecnológica da indústria, enquanto países como Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e China apostaram em inovação e mão de obra qualificada.

Educação: investimento alto, resultados baixos

O atraso educacional agrava o cenário. Apesar de investir 5,5% do PIB em educação: percentual acima de muitas economias desenvolvidas, o país apresenta desempenho baixo no Pisa em matemática, ciências e leitura.

“O Brasil gasta, mas não discute aprendizado, técnicas de alfabetização ou igualdade de oportunidades. Estamos incrivelmente atrasados”, afirma Marcos Lisboa, ex-secretário do Ministério da Fazenda.

Essa defasagem na formação de capital humano dificulta a incorporação de novas tecnologias e profissões do futuro, impactando diretamente a produtividade e o crescimento econômico.

Crises políticas e déficit crônico: amarras para o crescimento

Desde a redemocratização, crises políticas e econômicas se somaram a fatores estruturais, criando um ciclo de instabilidade. “Tivemos 26 anos de crescimento contra 14 de crise. Isso é muito em comparação a outros países”, observa Lisboa.

O resultado: indexação da economia, inflação persistente e juros altos, dificultando o investimento e a expansão do PIB. Marcos Mendes, pesquisador do Insper, alerta: “Desde 2014, o déficit público crônico cria amarras que travam o crescimento.”

A visão de longo prazo e o papel do multilateralismo

Economistas defendem que o Brasil precisa de mudanças estruturais profundas, incluindo equilíbrio fiscal, inovação tecnológica e qualificação da mão de obra. O multilateralismo e boas relações comerciais são cruciais para contornar barreiras externas e impulsionar a economia.

“O Brasil vem esperando há décadas para se conectar com o mundo e acabar com barreiras que custaram caro ao país. Agora é hora de buscar parcerias estratégicas sem se prender apenas a acordos regionais”, conclui Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/CNN Brasil

Reportagem: CNN/Brasil

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