Reviravolta no comando da comissão expõe racha no Congresso e reforça independência da nova federação PP-União.
A disputa pelo comando da CPMI do INSS ganhou contornos de embate político de alta voltagem nesta quarta-feira (20). O que parecia uma eleição definida virou cenário de reviravolta: a oposição saiu vitoriosa e agora controla tanto a presidência quanto a relatoria da comissão que vai investigar fraudes em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social. A cena foi celebrada por opositores como uma “vitória histórica” e vista pelo governo como um alerta de que sua articulação no Congresso não é tão sólida quanto aparenta.
O senador Carlos Viana (Podemos-MG) assumiu a presidência, enquanto o deputado Alfredo Gaspar (União-AL) ficou com a relatoria. O resultado contrariou as indicações dos presidentes das duas Casas Legislativas: Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB), que haviam apostado em Omar Aziz (PSD-AM) e Ricardo Ayres (Republicanos-TO) para os cargos. Aziz chegou a obter 14 votos, mas ficou três abaixo de Viana.
Para a oposição, a conquista abre caminho para uma investigação sem amarras. “Não ganha o partido A ou B, não ganha a oposição. Ganha o Brasil”, afirmou o deputado Zucco (PL-RS), líder oposicionista na Câmara, destacando que o acordo costurado em “madrugadas de conversas” garantiu que a comissão não fosse “capturada pelo governo e nem acabasse em pizza”. Segundo ele, o novo presidente da CPMI se comprometeu a pautar todas as convocações e quebras de sigilo, incluindo a possibilidade de ouvir Frei Chico, irmão do presidente Lula.
Do outro lado, o governo tenta minimizar os efeitos da derrota. O líder no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), negou falhas de articulação e atribuiu o resultado a “circunstâncias regimentais”: suplentes do PL votaram no lugar de titulares ausentes. Para Randolfe, a CPMI não deve se transformar em “palco nem palanque da oposição” e o Planalto ainda mantém maioria no colegiado.
Mas a avaliação entre aliados é de que a derrota foi simbólica. A nova federação entre União Brasil e PP, recém-anunciada, teve papel decisivo na virada. O movimento foi interpretado como um “recado de independência” ao Palácio do Planalto, já que, apesar de ocuparem ministérios, ambos os partidos vêm se mostrando menos alinhados com a base. Deputados do centrão chegaram a comparar a situação com a CPI da Covid, lembrando que tanto Jair Bolsonaro quanto Lula sofreram desgastes por falhas de articulação em momentos-chave.
O desafio agora é ver se a CPMI cumprirá a promessa de ir fundo nas investigações sobre os descontos ilegais em benefícios do INSS, revelados em abril após operações da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União. Enquanto oposicionistas prometem “romper a cortina de silêncio” e não blindar aliados de Lula, governistas dizem que não há o que temer e que foi a gestão petista quem interrompeu o esquema fraudulento.
Entre a euforia da oposição e a cautela da base, o que se revela é um Congresso cada vez mais fragmentado, onde maiorias são frágeis e vitórias, muitas vezes, passageiras. A CPMI do INSS, que começa sob clima de guerra política, terá de mostrar se será apenas mais um palco de disputas ou se de fato vai dar ao país a resposta que a sociedade espera.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto:/Agência Senado













