Republicano critica aproximação de potências com Xi Jinping enquanto Kremlin elogia postura “cínica, porém construtiva” do presidente norte-americano.
O mundo acompanhou com atenção o desfile militar em Pequim, comandado por Xi Jinping e marcado pela presença de Vladimir Putin, Kim Jong Un e Narendra Modi. Nos Estados Unidos, a cena teve efeito imediato: Donald Trump, em tom de alerta e ironia, declarou que os EUA “perderam a Índia e a Rússia para a China, a mais profunda e sombria”. A declaração, feita em sua rede Truth Social, foi acompanhada por imagens dos líderes caminhando lado a lado: um símbolo que acendeu debates sobre o redesenho do tabuleiro geopolítico.
Índia entre dois mundos
Apesar da fala de Trump, a Índia segue como parceiro estratégico de Washington. Mas Nova Déli tem mantido uma posição de equilíbrio delicado: não condenou abertamente Moscou pela guerra na Ucrânia e continua importando petróleo russo com desconto. Essa neutralidade, vista por muitos como pragmatismo, é justamente o que incomoda os Estados Unidos e leva Trump a apontar o risco de perda de influência na região.
Críticas à Europa e à China
As palavras do republicano também surgiram um dia após ele defender, em reunião com líderes globais, que a Europa deve parar de comprar petróleo russo e pressionar economicamente a China como forma de encerrar a guerra. “Transmitam meus cumprimentos a Putin e Kim Jong-un enquanto conspiram contra os Estados Unidos”, ironizou Trump em outra publicação, reforçando a tensão diante da cena transmitida em rede mundial.
Moscou elogia Trump
Enquanto Trump dispara críticas públicas, o Kremlin adota uma postura diferente: prefere a aproximação. O porta-voz Dmitry Peskov descreveu a maneira do presidente norte-americano negociar como “bastante cínica, mas no bom sentido”. Para ele, Trump é construtivo porque parte da lógica de “por que lutar se você pode negociar”.
A estratégia russa tem sido clara: valorizar Trump como alguém capaz de pressionar por soluções diplomáticas, em contraste com a postura dos governos europeus, acusados por Moscou de dificultar qualquer saída pacífica. Peskov foi além: disse que, se o republicano ajudar a abrir caminhos políticos, “nossos interesses coincidem”.
O jogo do poder e a corrida pela paz
Nos últimos meses, Trump tem oscilado entre criticar os ataques de Putin e afirmar que o líder russo quer encerrar o conflito. Ele e Putin chegaram a se reunir no Alasca, e já se fala em novos encontros em breve. Enquanto isso, Moscou mantém os elogios ao norte-americano, num movimento que parece buscar não apenas enfraquecer a União Europeia, mas também testar até onde a promessa de “paz rápida” pode render dividendos políticos para Trump.
Reflexos de um novo cenário
A cena dos líderes em Pequim e as reações de Trump mostram que não se trata apenas de gestos protocolares: é o retrato de um mundo que se reorganiza em blocos, muitas vezes opostos. De um lado, os EUA tentando segurar alianças frágeis; de outro, a China reforçando seu papel como anfitriã de uma nova ordem multipolar. No meio, milhões de vidas ainda presas a uma guerra sem fim previsível. No fim, fica a pergunta: o futuro será costurado por acordos pragmáticos ou pelas sombras de desfiles militares?
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters













