Ministro do STF lista 13 episódios que, segundo ele, revelam atuação de grupo com o objetivo de desestabilizar a democracia.
O julgamento que pode definir o destino do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus principais aliados trouxe à tona, nesta terça-feira (9), uma narrativa dura sobre a tentativa de golpe que teria sido planejada entre julho de 2021 e janeiro de 2023. Para o ministro Alexandre de Moraes, Bolsonaro liderou uma organização criminosa com divisão de tarefas, hierarquia definida e atuação permanente, visando deslegitimar eleições e o Poder Judiciário.
Heleno e Ramagem no centro das provas
Durante o voto, Moraes destacou que não é “normal” que um general da reserva, ex-ministro e figura central do governo, como Augusto Heleno, mantivesse uma agenda com registros de atos golpistas. Já a defesa do general afirmou que se tratava apenas de um suporte de memória e que ele teria se afastado das decisões centrais do governo.
O ministro também ironizou as anotações encontradas com Alexandre Ramagem, deputado federal e ex-diretor da Abin, chamando-as de um “querido diário”. Para Moraes, essas mensagens demonstram que a organização criminosa já iniciava atos executórios para manter-se no poder e disseminar desinformação sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas.
Os 13 atos apontados por Moraes
Entre os episódios listados pelo ministro estão:
- Uso de órgãos públicos para monitorar adversários políticos;
- Lives e entrevistas com graves ameaças à Justiça Eleitoral;
- Tentativa de restringir o exercício do Judiciário em 7 de setembro de 2021;
- Reunião ministerial em 5 de julho de 2022;
- Reunião com embaixadores em 18 de julho de 2022;
- Uso indevido da PRF no segundo turno das eleições;
- Uso indevido das forças armadas;
- Ações executórias pós-eleição, como monitoramento de autoridades e reuniões estratégicas;
- Planejamento das operações “Punhal Verde e Amarelo” e “Copa 2022”;
- Ações executórias após essas operações, como “Operação Luneta” e “Operação 142”;
- Elaboração da minuta do “Golpe do Estado”;
- Tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023;
- Criação de gabinete de crise após o episódio.
O ministro ainda alertou para o histórico de utilização das forças armadas no Brasil para golpes e estados de exceção, ressaltando que os atos observados seguiam um padrão de atentado à democracia.
Quem são os réus e crimes imputados
Além de Bolsonaro, integram o núcleo 1 da denúncia: Alexandre Ramagem, Almir Garnier, Anderson Torres, Augusto Heleno, Mauro Cid, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto. Todos respondem a crimes como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. Ramagem responde a apenas três desses crimes, após decisão da Câmara dos Deputados.
Um julgamento que ultrapassa os tribunais
Moraes abriu a votação do mérito, seguida por Flávio Dino, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin. Mais do que julgar indivíduos, o STF avalia os limites entre poder e democracia, testando a força das instituições diante de tentativas de ruptura.
O país observa com atenção cada detalhe do julgamento. O que está em jogo não é apenas a punição de réus poderosos, mas a própria resiliência da democracia brasileira, lembrando que os pilares do Estado precisam ser protegidos mesmo quando desafiados por aqueles que já ocuparam os mais altos cargos da República.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/STF













