Enquanto ex-presidente busca perdão, grupo de partidos pavimenta caminho que pode enfraquecê-lo em 2026.
No último dia, (quarta-feira, 17/09), o bolsonarismo parecia comemorar uma vitória histórica. A Câmara aprovou com folga a urgência do projeto que prevê anistia a Jair Bolsonaro e aliados envolvidos nos atos de 8 de janeiro e na trama golpista. À primeira vista, seria um passo decisivo para blindar o ex-presidente. Mas, na prática, o quadro é muito mais complexo e revela a força política do Centrão.
Urgência aprovada, projeto ainda em construção
O texto aprovado não é a anistia sonhada pelo bolsonarismo. Trata-se de um “tapa-buraco”, um documento provisório que será substituído por uma proposta definitiva. Na realidade, quem hoje dita o ritmo das negociações não é Bolsonaro, mas o Centrão: grupo de partidos que há muito compreendeu a estratégia de manter influência em todas as frentes do Congresso.
Centrão joga com a anistia
Em poucos dias, o Centrão conseguiu usar a anistia como moeda de troca. Primeiro, para aprovar a PEC da Blindagem, medida que protege deputados e senadores de processos e prisões. Agora, coloca o perdão a Bolsonaro no centro de uma agenda que, paradoxalmente, pode reduzir o poder do próprio ex-presidente. A proposta discute mudanças nas penas impostas por crimes graves, como atentado ao Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.
Consequências para o bolsonarismo
Bolsonaro pode, em tese, ser beneficiado pela anistia, mantendo-se em prisão domiciliar sem necessidade de cumprir pena na Papuda ou em cela especial da PF. Mas, na prática, ele corre o risco de ficar fora do jogo eleitoral em 2026. O Centrão, controlando o processo, abre espaço para a construção de uma candidatura alternativa que herde o capital político do ex-presidente.
Entre os nomes cotados, surge Tarcísio de Freitas, do Republicanos, partido do Centrão, que consolidou alianças durante seu governo em São Paulo. A composição final da anistia parece englobar direita, centro e até setores da esquerda, diluindo o poder político que Bolsonaro ainda poderia exercer.
Reflexão política
O cenário mostra que a política é, muitas vezes, um jogo de paciência e estratégia. Mesmo quando aparenta vitória, é preciso observar quem realmente conduz as negociações. No caso da anistia, Bolsonaro pode ganhar perdão formal, mas a longo prazo corre o risco de perder influência no próprio terreno que ajudou a construir. A lição é clara: vitórias aparentes nem sempre significam controle do jogo.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Brasil













