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Protestos da esquerda desafiam anistia e PEC da Blindagem e reacendem batalha política em Brasília

Mobilizações em várias capitais, com apoio de artistas, buscam pressionar o Congresso enquanto governo Lula sinaliza cautela sobre penas do 8 de Janeiro.

Há dias em que a política brasileira sai das paredes de mármore de Brasília e toma as ruas do país. Neste domingo (21), milhares de pessoas se reuniram em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília para protestar contra dois dos projetos mais polêmicos do momento: o PL da Anistia e a PEC da Blindagem. Embalados por shows de artistas renomados e por palavras de ordem contra retrocessos democráticos, os atos deram novo fôlego à esquerda e abriram mais um capítulo da disputa que hoje divide o Congresso e a sociedade.

A pauta das ruas contra o Congresso

Em São Paulo, 43 mil pessoas participaram da mobilização; no Rio, 42 mil. O recado dos manifestantes foi direto: barrar a tramitação da PEC da Blindagem, enterrar a anistia a condenados do 8 de Janeiro e colocar em primeiro plano projetos que dialogam mais com a realidade cotidiana, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda.

“O que aconteceu hoje é uma virada de jogo. Enterramos a PEC da Bandidagem e mostramos que o povo quer pautas como a isenção do IR e o fim da escala 6×1”, afirmou o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, em ato na capital federal. Guilherme Boulos (PSOL-SP) reforçou que a mobilização também serve de pressão sobre a Câmara para votar a cassação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

A posição de Lula sobre a dosimetria

Enquanto as ruas ferviam, nos bastidores de Brasília o presidente Lula manteve postura de cautela. Segundo o presidente nacional do PT, Edinho Silva, o petista admite discutir a dosimetria das penas dos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, mas considera precipitado abrir esse debate agora.

“É normal que haja revisão legislativa no Congresso, mas não neste ambiente político. Revisar a pena logo após decisão do STF é visto como afronta e casuísmo”, afirmou Edinho. Para o governo, antecipar esse movimento poderia desgastar ainda mais o ambiente já polarizado.

A polêmica da PEC da Blindagem e do PL da Anistia

A PEC da Blindagem, aprovada na Câmara na semana passada, cria obstáculos para investigações contra parlamentares sem aval prévio da Casa — em votação secreta — e amplia o foro privilegiado a presidentes de partidos. O texto enfrenta resistências no Senado, especialmente na Comissão de Constituição e Justiça, sob relatoria de Alessandro Vieira (MDB-SE).

Já o PL da Anistia, também aprovado em regime de urgência na Câmara, está agora sob relatoria de Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que articula transformá-lo em um projeto de “dosimetria das penas”. A ideia, porém, divide até mesmo setores da direita, que preferiam uma anistia ampla.

A resposta da direita

Enquanto a esquerda celebrava as ruas, a direita tratou de minimizar os atos. O pastor Silas Malafaia os chamou de “shows de artistas para levar gente para a rua”. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acusou os manifestantes de hipocrisia: “anistiados contra a anistia é hipocrisia”. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) viralizou com uma montagem contrapondo imagens de Caetano Veloso dos anos 1970 e de hoje, acusando-o de incoerência. Outros parlamentares, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e André Fernandes (PL-CE), também usaram as redes para ironizar as mobilizações.

Entre ruas e instituições

As manifestações de domingo mostram que a batalha em torno da democracia não se limita ao Congresso. Há uma disputa de narrativas, de símbolos e de futuro. Se, de um lado, a esquerda aposta na pressão popular para travar projetos que considera nocivos, de outro, a direita tenta colar o rótulo de contradição e hipocrisia. No meio disso, Lula caminha com cautela, medindo palavras e tempos para não aprofundar feridas ainda abertas desde o 8 de Janeiro.

No fim, a pergunta que ecoa é: qual voz o Congresso vai ouvir: a das ruas que pedem mais justiça social e transparência, ou a dos corredores onde a blindagem política insiste em se reinventar? O que se decide agora não é apenas uma pauta legislativa, mas a forma como a democracia brasileira escolherá se fortalecer ou se fragilizar.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/CNN

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