Invasão na Fazenda Norbrasil destrói mais de 15 mil hectares de floresta e reacende tensão fundiária em Rondônia, onde mais de 40 pessoas já morreram em disputas pela terra.
A cena que se desenha no distrito de Abunã, em Rondônia, carrega o peso de uma história que parece se repetir e piorar. A Fazenda Norbrasil, tradicional propriedade com quase um século de existência produtiva, amanheceu sitiada novamente. Integrantes da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) consolidaram, desde o dia 1º de novembro, uma invasão armada que transformou a área em palco de destruição ambiental e tensão crescente.
Com cerca de 33 mil hectares, a fazenda está completamente isolada. Os acessos foram bloqueados pelos invasores, que, segundo relatos de funcionários e produtores locais, controlam a entrada e saída de pessoas e veículos, impedindo qualquer tentativa de retomada da área.
Cerco armado e devastação ambiental
Imagens divulgadas pela imprensa regional mostram homens armados patrulhando os limites da fazenda. Funcionários que tentaram se aproximar da sede foram recebidos a tiros na segunda-feira (3). Não houve feridos, mas o episódio acendeu o alerta sobre o nível de violência.
Fontes ligadas à segurança pública confirmam que pelo menos quatro tratores foram vistos operando internamente, abrindo novas estradas, erguendo pontes improvisadas e preparando o terreno para uma ocupação prolongada. Paralelamente, o impacto ambiental é alarmante: cerca de 15 mil hectares de mata nativa, parte da reserva legal da fazenda, foram destruídos. Há relatos de queimadas controladas e retirada ilegal de madeira, prática que ameaça a biodiversidade da Amazônia Ocidental e afronta diretamente o Código Florestal.
Região marcada por mortes e impunidade
A Fazenda Norbrasil é um dos epicentros da violência agrária em Rondônia. Nos últimos anos, o local foi palco de embates fatais entre sem-terra, grileiros e proprietários rurais, com mais de 40 mortes registradas. Entre as vítimas, o ex-gerente da propriedade, Secimo Mineiro dos Santos, executado com mais de 30 tiros, tornou-se símbolo de um conflito que não cessa.
Outros episódios, como o assassinato de dois policiais militares em 2021 e o ataque à sede em Mutum Paraná, em setembro de 2025: quando fuzis e tratores foram usados para destruir galpões, mostram que a escalada da violência na região ultrapassa o limite do tolerável.
INCRA omisso e impasse sem solução
Apesar das sucessivas denúncias e pedidos de intervenção, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) permanece inerte diante da situação. O proprietário afirma ter protocolado diversas petições pedindo mediação ou regularização fundiária, mas nada avançou.
Enquanto isso, a região da Ponta do Abunã, marcada por forte expansão do agronegócio desde os anos 1980, segue sendo palco de invasões, mortes e destruição ambiental: uma realidade documentada por órgãos como a Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Vozes e silêncios no campo
“Não consigo mais produzir nem entrar em minha área, e agora veem destruindo o que resta de floresta para se instalar”, desabafou o proprietário à imprensa local, visivelmente abalado. Dezenas de famílias que dependem da fazenda estão desempregadas, enquanto a produção agropecuária está completamente paralisada.
O comandante-geral da Polícia Militar de Rondônia afirmou, em nota, que o patrulhamento foi reforçado e que “qualquer ameaça à ordem pública ou ao meio ambiente será combatida com rigor”. Ainda assim, as ações de desocupação não têm prazo para ocorrer, e a tensão aumenta a cada dia.
Um retrato doloroso do campo rondoniense
O que acontece hoje na Fazenda Norbrasil é mais do que uma disputa por terra; é o reflexo de anos de omissão e descaso com a política agrária. Cada hectare queimado, cada família deslocada e cada vida perdida nessa região expõe a ferida aberta da Amazônia rondoniense: um território rico, mas sangrado pela impunidade.
Enquanto a floresta é devastada e o medo cresce, permanece a pergunta que ecoa entre os que ainda resistem no campo: até quando a justiça vai demorar a enxergar o que a mata, o fogo e as balas já gritam há tanto tempo?
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Painel Político













